Quinta-feira, 12 de Março de 2026

Reciclagem no Brasil: oportunidade bilionária que estamos enterrando

Imagine um país que joga R$ 14 bilhões no lixo todos os anos. Aprendi numa pesquisa sobre “O Panorama de Gestão de Resíduos no Brasil”, que executamos nos últimos meses, que esse país existe e se chama Brasil.

Dos 81 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos que produzimos anualmente, um terço poderia ser reciclado. No entanto, reciclamos, na melhor das hipóteses, 8,3%. O resto? Enterrado em aterros sanitários, poluindo rios, mares, e desperdiçando recursos que poderiam — e deveriam — estar gerando empregos, reduzindo custos industriais e fortalecendo a competitividade das empresas brasileiras.

Não se trata apenas de um problema ambiental. Trata-se de um desperdício econômico monumental. Esse desperdício é causado pela lógica econômica que acompanhamos desde a indústria que usa embalagens para proteger produtos, para o comércio, os consumidores e as cidades onde eles vivem, até as cooperativas de reciclagem.

Hoje, a lógica que rege a gestão de resíduos no Brasil é perversa: o sistema resulta que é mais barato enterrar do que reciclar. Contratos públicos remuneram toneladas aterradas, não toneladas reaproveitadas. Produtos reciclados pagam a mesma carga tributária (ou às vezes até maior) do que matérias-primas virgens. E, enquanto isso, empresas gastam fortunas importando materiais que poderiam estar disponíveis aqui mesmo, aproveitando nosso lixo.

Cooperativas de catadores — responsáveis por 90% do que de fato reciclamos — trabalham em condições precárias, sem infraestrutura ou apoio financeiro. E o varejo, que poderia ser um elo estratégico na logística reversa, continua tratando a coleta seletiva como um ato de responsabilidade corporativa, não como um negócio.

Agora imagine se cada aumento de 1% na taxa de reciclagem gerasse 9.300 empregos diretos. Não é teoria: são dados concretos. Um avanço de 10% na taxa de reciclagem poderia criar quase 100 mil novos empregos e reduzir custos industriais com matérias-primas.

A nossa mensagem para executivos: reciclagem é estratégia de negócios, não filantropia. Chegou a hora de romper com a ideia de que a reciclagem é um problema “do governo” ou “do consumidor”. A economia circular precisa ser tratada como uma frente estratégica de negócios — com metas, investimentos e inovação.

Oportunidades reais estão à disposição para quem souber enxergá-las:

•Empresas de embalagem podem liderar o design sustentável e reduzir custos com materiais reciclados, além de melhorar sua reputação e de seus clientes.

•Indústrias podem ganhar competitividade ao adotar insumos mais baratos e reduzir sua exposição a flutuações internacionais de preço.

•Varejistas podem transformar Pontos de Entrega Voluntária em hubs de relacionamento com o consumidor consciente.

•Prefeituras podem reverter a lógica perversa de contratos que premiam o desperdício e reduzir a pressão por procurar lugares para novos aterros.

O consumidor já está pronto. Falta o mercado se ajustar. Falta liderança. A pergunta é: você vai liderar a transformação ou continuar assistindo bilhões sendo enterrados? Reciclar não é só um dever moral, também pode ser um excelente negócio. Quem entender isso primeiro, vai colher os frutos de um mercado que o Brasil insiste em ignorar.

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