Domingo, 31 de Agosto de 2025

Mercado fica mais criterioso ao financiar projetos de energias renováveis

O mercado de capitais tem sido criterioso com o financiamento aos novos projetos de energia renovável, especialmente os que não são ligados a grandes grupos econômicos corporativos. Isso se deve a questionamentos sobre a falta de previsibilidade do fluxo de caixa que alguns dos novos projetos estão tendo com os curtailments (cortes na geração de energia determinados pelo Operador Nacional do Sistema, ONS).

Mas as soluções para escoar esse excesso de energia gerado em Estados do Nordeste (NE), como Ceará e Rio Grande do Norte, para outras regiões do país estão sendo endereçadas, segundo o mercado. “Há projetos em andamento para reforçar as linhas de transmissão, mas isso demanda tempo. Então, no curto prazo, está sendo mais desafiador para algumas empresas do segmento de renováveis captarem recursos pelo mercado de capitais”, afirma, Cristiano Cury, coordenador da Comissão de Renda Fixa da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

Apesar de o volume total de projetos de renováveis financiados por debêntures de infraestrutura (que dá isenção de Imposto de Renda ao emissor) e debêntures incentivadas (que isenta de IR o investidor pessoa física), ter aumentado no primeiro semestre do ano, chegando a R$ 6,6 bilhões, contra R$ 4,83 bilhões, no mesmo período de 2024, os empréstimos têm sido rigorosos com os projetos menores.

“O investidor se sente mais confortável em financiar empresas de grandes grupos, que não dependem da receita só daquele projeto específico, olhando a capacidade de pagamento corporativo do grupo como um todo”, observa Cury. “Já quando quer fazer um project finance especificamente para novos projetos está um pouco mais desafiador”, observa Cury.

Uma das emissões considerada emblemática foi da ‘Debênture Verde’, da Engie Brasil Energia, no valor de R$ 2,2 bilhões, em julho. “Os recursos serão destinados ao financiamento de projetos de energia renovável, como parques eólicos e solares, além da modernização da Usina Hidrelétrica de Salto Osório. As debêntures classificadas como “verdes” possuem os compromissos da Engie de aplicar os recursos em projetos alinhados com o Green Finance Framework – um dos maiores fundos climáticos do mundo para apoiar a transição energética”, afirma Allan Gabriel, responsável pelo setor de energia na área de project finance do Itaú BBA, que liderou a emissão.

Já o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que tem histórico de financiamento das renováveis, diz que é possível afirmar que o setor tem mantido o nível de investimentos de forma estável. Nos últimos dez anos, o banco de fomento aprovou uma média de 2 GW em projetos renováveis por ano, com financiamentos próximos a R$ 10 bilhões anuais, e considera que esse volume mostra a manutenção dos investimentos que as renováveis têm mantido de forma estável nos últimos anos.

“Os investimentos em energia renovável, em particular das fontes eólica e solar, seguem altamente relevantes. No Plano Decenal de Energia 2034, a EPE [Empresa de Pesquisa Energética, do governo federal] projeta um crescimento de capacidade instalada de 150 GW apenas nas renováveis, sem considerar a geração distribuída, o que é considerável dado o parque gerador atual ter 250 GW”, diz Luciana Costa, diretora de infraestrutura, transição energética e mudança climática do BNDES.

A executiva conta que o mais recente financiamento aprovado foi o da Altas, de Minas Gerais (MG), de R$ 1,008 bilhão, em junho deste ano. O projeto prevê a implantação de 11 usinas fotovoltaicas localizadas no Município de Arinos (MG), com capacidade instalada total de 505 MW e de sistema de transmissão associado.

O Bradesco registrou o financiamento de 40 operações de energia renovável no primeiro semestre deste ano, 10 a mais do que no mesmo período de 2024. No entanto, o volume financiado caiu 7% quando comparado com o mesmo período de 2024, pois foram transações menores. Hoje, o banco tem mais de 70 operações no pipeline de projetos para energia solar e eólica, com mais de R$ 30 bilhões de financiamento potencial em estruturação e originação.

“Embora o setor de energia renovável já traga benefícios ambientais intrínsecos, a certificação com título verde sempre agrega uma camada adicional de credibilidade ao contar com a validação de um terceiro independente. Esse selo reforça os atributos reputacionais da companhia, como transparência e posicionamento estratégico, além de atrair o interesse de investidores com foco em sustentabilidade, como fundos dedicados à temática”, afirma Felipe Thut, diretor de renda fixa e produtos estruturados, do Bradesco BBI, que tem como meta fomentar R$ 350 bilhões em crédito sustentável até 2025, com emissões por meio do mercado de capitais, fianças e operações bilaterais. O banco já atingiu 94% desse volume.

O Santander diz ter participado de mais emissões de renováveis este ano do que no primeiro semestre de 2024, e cita algumas mais relevantes. A de Ibitu, do Projeto Tupi Energias, para geração de energia eólica, em abril, de R$ 820 milhões, por meio de debêntures, e a da Origo, de R$ 500 milhões, para projeto de energia solar, em março deste ano, em Garanhuns (PE), cuja emissão se deu por notas comerciais, diz Igor Fonseca, head de project finance do banco.

 

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