Sexta-feira, 29 de Agosto de 2025

Desequilíbrio entre oferta e demanda de energia é inevitável, mas há soluções

O excesso de investimentos na geração de energia renovável e o consequente desequilíbrio entre oferta e demanda não é um problema exclusivo do Brasil. Vários países têm recorrido aos “curtailments” (cortes na geração de eletricidade) para evitar sobrecargas às redes de transmissão. Essas restrições atingem principalmente as fontes renováveis, eólica e solar, tecnicamente mais fáceis de gerenciar do que as fontes térmicas.

“A questão de você ter um desequilíbrio entre oferta e demanda é inevitável. A gente está falando de infraestruturas, e infraestruturas são coisas de médio prazo, às vezes de longo prazo. Mesmo com estudos, muita coisa acontece no caminho: a demanda pode crescer acima do esperado, a oferta pode crescer acima do esperado, o PIB não cresce como esperado, e você tem desequilíbrios. Mas aí tem que gerenciar essas questões, como é o caso da criação de demanda [por energia renovável]”, afirma Jorge Arbache, professor de economia da Universidade de Brasília (UnB).

De acordo com a Agência Internacional de Energia (AIE), em países onde os investimentos em redes e as medidas de integração do sistema não acompanham a geração de energia verde, o descarte de eletricidade também é uma realidade. No Chile, Irlanda e Reino Unido, o descarte de energia eólica e solar fotovoltaica recentemente atingiu entre 5% e 15%.

Operadores de rede precisam equilibrar oferta e demanda para manter o sistema elétrico estável. A produção de geradores eólicos e solares pode ser reduzida, seja por meio de sinais de preço, seja por ordens diretas de corte da geração, durante períodos de congestionamento, quando as linhas de transmissão não têm capacidade suficiente para entregar toda a energia disponível ou quando há excesso de oferta, acima da demanda dos consumidores.

Em 2024, nos Estados Unidos, o Operador Independente do Sistema da Califórnia (Caiso) reduziu 3,4 milhões de megawatts-hora (MWh) da geração de energia solar e eólica, um aumento de 29% em relação à quantidade de energia descartada em 2023.

A energia solar representou 93% de toda a energia descartada pelo Caiso no ano passado. O maior volume de descarte ocorreu na primavera, quando a geração solar era relativamente alta e a demanda por eletricidade era relativamente baixa, devido às temperaturas amenas da estação, que reduzem a necessidade de aquecimento ou refrigeração dos ambientes.

Paulo Pedrosa, presidente da Abrace, associação que reúne mais de 50 grupos empresariais responsáveis por quase 40% do consumo industrial de energia elétrica do Brasil, recorda que a Espanha se deparou com desequilíbrio ao criar um modelo de subsídio ao painel solar que gerou um problema bilionário para o Tesouro. Apesar de gastar com incentivos para geração solar, o país não investiu na ampliação da infraestrutura, criando restrições técnicas na rede e excesso de oferta no mercado.

De acordo com o Jean Paul Prates, ex-senador e ex-presidente da Petrobras, “existem soluções de curto, médio e longo prazo” para reequilibrar a geração e integração de energia renovável à rede. “A curto prazo é impossível corrigir tudo”, diz Prates, que hoje está à frente do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (Cerne). As soluções mais imediatas, diz, passam por mudanças em editais para regulamentar a concorrência e a concessão de transmissão.

“E aí você passa para as soluções de médio prazo, como estimular imediatamente projetos de carga intensa nos pontos onde está sendo gerada esse excedente. É o caso de levar data centers, sistemas de mineração de criptomoedas ou qualquer outra coisa que tenha consumo eletrointensivo para as regiões com maior capacidade de geração de energia renovável”, afirma.

Na opinião de Pedrosa, data centers podem até equilibrar a oferta e a demanda, mas não trazem vantagens estruturais para o país. “O foco não deveria ser na oferta de energia, está sobrando energia no Brasil. Nós temos que pensar em direcionar essa energia para o consumo industrial, para produzir produtos competitivos para o mundo, como o aço e o alumínio verde, e ajudar a reduzir as emissões de gases poluidores, ao mesmo tempo que desenvolvemos o país.”

A longo prazo, Arbache vê com bons olhos a solução encontrada pela China para equilibrar oferta e demanda. “Países como a China hoje estão desenvolvendo polos industriais verdes focados exatamente na energia. Você não constrói primeiro a energia verde e depois vê onde vai colocar. Você constrói tudo ao redor da energia verde. E com isso vem outras coisas, como os incentivos tributários, às exportações daquele local. A energia é a âncora dos projetos. O Brasil tinha que estar fazendo isso”, conclui o professor.

 

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