Domingo, 31 de Agosto de 2025

Avanço das fontes limpas potencializa os riscos de apagão

Uma queda generalizada de energia na Espanha e em Portugal, em 28 de abril, assustou a Europa, despertando o bloco para um problema que já é conhecido dos brasileiros: os apagões. No caso da Espanha, a causa exata ainda não foi devidamente esclarecida, mas é praticamente consenso entre os especialistas que ela se origina na instabilidade causada pela expansão acelerada das fontes renováveis.

Um problema semelhante aconteceu no último apagão de grandes proporções no Brasil, na manhã de 15 de agosto de 2023, com origem no Ceará, mas repercussão em 25 Estados. Nesse evento, houve falhas múltiplas em grande escala, associadas principalmente ao desempenho das usinas eólicas e solares, “que não responderam ao desempenho previsto, e em volume acima do suportável pelo sistema”, afirma o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico). Segundo o órgão, “eventos dessa natureza, embora raros, podem ocorrer em qualquer sistema elétrico do mundo.”

“A origem desses dois apagões é que as plantas eólicas e principalmente solares estão crescendo tanto na matriz elétrica, que estão gerando uma espécie de incompatibilidade entre os equipamentos”, diz Nivaldo de Castro, professor e pesquisador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ele afirma que o apagão de 2023 ocorreu numa determinada hora da manhã em que havia muito sol, muita energia solar. “Estava havendo um excesso de oferta.”

O ONS diz que os dois eventos acima são caracterizados por falhas da rede elétrica que levam ao desligamento em cascata de linhas de transmissão e usinas geradoras, resultando na perda súbita de grandes volumes de carga. E que a maior parte das ocorrências que acontecem no Brasil não resulta em interrupção do fornecimento de energia. “Nos últimos dez anos os indicadores de robustez apontam que, na média, em 94% dessas falhas não houve qualquer corte de carga, evidenciando a resiliência do sistema.”

O antigo blecaute que era associado apenas à falta de chuvas não é mais a principal preocupação no setor. Hoje, há uma sobreoferta de geração. “Estamos numa situação diferente da de 2001, quando não havia oferta. Hoje, o ONS está sendo obrigado a cortar energia das novas usinas, o chamado ‘curtailment’”, diz Castro, que acaba de ser indicado para integrar o Conselho Nacional de Política Energética.

Eólicas e solares estão gerando uma espécie de incompatibilidade entre os equipamentos” — Nivaldo de Castro

Segundo o pesquisador, o maior desafio no horizonte é de crise financeira, já que os contratos assinados pelas usinas solares e eólicas preveem uma receita que pode não se concretizar, dados os cortes que estão sendo feitos pelo ONS. Há o risco de inadimplência e crise financeira para algumas companhias, que dependem de recursos para os novos projetos. Ou seja, o risco é de um “apagão financeiro”.

Castro discorda das eventuais críticas sobre a falta de planejamento por parte de autoridades como ONS, Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e Ministério das Minas e Energia. “Essa crítica não é verdadeira, porque o planejamento é feito para atender a demanda, e não a oferta.” Para ele, a transição energética deu uma competitividade muito grande à energia eólica e, principalmente, solar, que é muito barata. “O modelo de subsídios faz com que os empreendedores busquem se apropriar deles. Criam plantas, fazem energia solar para atender o mercado livre, assinam contratos. Só que tem tanta oferta que o ONS é obrigado a cortar. Há um descasamento do planejamento do segmento de transmissão com o de geração”, afirma.

“Não é uma questão de planejamento, mas da evolução da regulação, da questão dos leilões, de toda a burocracia que está associada a esses processos”, concorda Djalma Falcão, professor emérito no Programa de Engenharia Elétrica da Coppe/UFRJ. Para ele, o problema da intermitência das novas fontes é corrigível, desde que se introduzam fontes ou sistemas de armazenamento que vão compensar o descompasso, argumenta.

Falcão diz que já existe essa tecnologia, bastante utilizada, por exemplo, na Califórnia (EUA). Lá, sistemas de baterias armazenam a energia durante o período em que a geração fotovoltaica é abundante. Essa energia é aproveitada no final da tarde, para suprir as deficiências quando o consumo aumenta. Outros países já contam com a reserva em bateria. O líder é a China, seguido pelos EUA. Na América Latina, quem mais tem investido no armazenamento é o Chile.

“O Brasil já detectou isso, está planejando fazer um leilão de capacidade exclusivamente voltado para a instalação de baterias. Apenas está atrasado. Esse é que o problema”, diz Falcão. Ele lembra que foi lançado um edital incluindo essa modalidade, mas houve contestação dos próprios concorrentes. “Está demorando um pouco mais do que deveria para se lançar um novo edital”, diz.

O ONS diz que vem monitorando atentamente a transição com a expansão das novas fontes e, por meio do Plano de Operação Energética (PEN 2025), tem recomendado ações concretas. Dentre elas, a realização anual de leilões de reserva de capacidade para os momentos de maior exigência e a definição de regras que permitam avaliar se a flexibilidade das usinas está atendendo ao que o sistema de energia precisa. O Ministério das Minas e Energia diz que a consulta pública para realização do leilão deverá ser lançada em breve.

“Estamos trazendo uma tecnologia nova e o padrão de operação ainda não conseguiu fazer um ajuste fino entre esses novos equipamentos. Esse é um problema característico do processo de transição energética”, afirma Castro. E isso se agrava com novas fontes que estão em expansão, como a geração distribuída.

Falcão ainda defende o controle da demanda, que é incipiente no Brasil. Por meio dele, negocia-se o horário de utilização dos grandes consumidores, algo já comum em outros países, com grande eficiência e custo baixo. “O risco de apagão existe. Mas existem medidas que podem ser tomadas para evitar. Ainda estamos em tempo”, resume.

 

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