Clima força investimentos para aumentar a resiliência das redes elétricas
Fortes chuvas, alagamentos, ventos acima de 60 km/h, incêndios causados por secas intensas. A maior intensidade e frequência de eventos climáticos extremos impacta os segmentos de transmissão e distribuição de energia. Dados do Operador Nacional do Sistema (ONS) apontam que no primeiro semestre deste ano, 39,1% dos desligamentos em linhas de transmissão foram causados por questões climáticas, contra 32,4% em 2024. O “novo normal” do clima tem levado as companhias a aumentar investimentos na modernização dos sistemas e em medidas preventivas para evitar interrupções e tornar as redes mais resilientes às consequências das mudanças climáticas.
A expectativa da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee) é que as empresas invistam cerca de R$ 145 bilhões nos próximos quatro anos para aumentar a resiliência das redes. Desse total, cerca de 40% incluem melhorias na infraestrutura física, como o uso de materiais mais resistentes, implantação de redundâncias em pontos críticos, enterramento de linhas em áreas de maior vulnerabilidade e o uso crescente de monitoramento em tempo real, com sensores e drones, para identificar falhas antes que causem interrupções. A associação também tem participado de missões internacionais para troca de experiências, com visitas aos Estados Unidos e Reino Unido.
“Hoje enfrentamos um desafio de adequação das infraestruturas nos centros urbanos, e também é preciso melhorar a capacidade de previsibilidade. É importante para a distribuidora saber onde a chuva vai cair, por exemplo, para que possa colocar equipes de prontidão naquela região”, aponta Marcos Madureira, presidente da Abradee.
“Os investimentos das distribuidoras hoje são planejados com base em mapeamentos climáticos, alinhados também a diretrizes do Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE) e programas de gestão de risco do setor elétrico, buscando prevenir falhas e garantir maior continuidade no fornecimento”, explica Bruna de Barros Correia, sócia de Energia do BMA Advogados.
A Neoenergia, dona de distribuidoras em Pernambuco, Bahia, Rio Grande do Norte, São Paulo, Mato Grosso do Sul e Distrito Federal, aposta na digitalização e automação das redes para aumentar a eficiência da resposta em caso de quedas de energia, com o uso de tecnologias como o sistema AGR (Automatic Grid Restoration), que já está em uso nas operações pernambucana e potiguar. “O sistema é capaz de reconfigurar automaticamente a rede elétrica em casos de intercorrências. Os algoritmos funcionam como controladores virtuais que se utilizam de informações da rede em tempo real para identificar e isolar trechos com necessidade de reparo e religar o restante da rede elétrica”, explica Giancarlo Vassão, diretor-executivo de operações do grupo.
O resultado, segundo ele, é uma maior agilidade e eficiência no restabelecimento do fornecimento de energia para os clientes afetados. A distribuidora hoje conta com 80% das redes de alta e média tensão digitalizadas e deve investir um total de R$ 24 bilhões entre 2024 e 2027 em expansão, modernização e infraestrutura.
A Enel também intensificou a modernização de suas redes de distribuição frente ao agravamento dos eventos climáticos. A maior parte dos investimentos – R$ 10,4 bilhões até 2027, 67% a mais do que o total previsto para o ciclo anterior (2024-2026) – irá para São Paulo, onde a empresa enfrentou problemas de interrupção com fortes chuvas em novembro de 2023, quando mais de 2 milhões de pessoas ficaram sem luz na região metropolitana. Nas três distribuidoras do grupo – além de São Paulo, há operações no Rio e no Ceará – os investimentos vão somar R$ 24 bilhões de 2025 a 2027, com foco na digitalização da rede, incluindo inteligência artificial para detectar falhas e fazer manobras para restringir o número de clientes afetados em casos de interrupções.
Os investimentos das distribuidoras são também uma resposta à postura do regulador, que tem endurecido as exigências às concessionárias para garantir o fornecimento de energia mesmo em cenários de eventos climáticos severos. Exemplo é o decreto nº 12.068/2024, que estabeleceu que, como compromisso para a prorrogação das concessões, as distribuidoras deverão desenvolver ações para a redução da vulnerabilidade e para o aumento da resiliência das redes de distribuição frente a eventos climáticos, conforme regulação da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
Paralelamente, a Aneel instaurou consulta pública para aprimorar a regulação e resiliência do sistema de distribuição e transmissão a eventos climáticos extremos. As intervenções incluem a possibilidade de a distribuidora fazer o pagamento de compensações em interrupções classificadas como de emergência; o compartilhamento de equipe e equipamentos entre concessionárias, diante de eventos climáticos extremos; a elaboração de plano de contingências; e o ressarcimento de danos elétricos.