Tarifaço de Trump vai impactar cadeia de reciclagem no Brasil
O setor de reciclagem no Brasil será impactado pelo tarifaço anunciado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, impactando cadeias que empregam muitos brasileiros como as que fazem o reaproveitamento do alumínio, que gera renda pra cerca de 800 mil trabalhadores – incluindo informais. As cadeias a serem mais afetadas são a do alumínio, aço e cobre, segundo o fundador do Instituto Soul do Plástico, Rui Katsuno.
“O Brasil é globalmente competitivo no reaproveitamento de alumínio (com recuperação de latas em cerca de 98% dos casos). Porém, com os EUA tornando mais caro importar tanto o primário quanto o reciclado, o setor pode perder compradores e ver os preços internacionais encolherem”, comenta Rui.
Atualmente, o alumínio brasileiro é taxado em 25% para entrar nos EUA. A taxação anunciada por Trump é de 50% e entra em vigor no dia 1º de agosto. Em 2024, os Estados Unidos receberam 16,8% das exportações brasileiras de alumínio, segundo informações da Associação Brasileira do Alumínio (ABAL). A entidade estima que até 90% do alumínio primário produzido nos EUA tenha, em seu DNA, insumos brasileiros e que isso gera “uma complementaridade produtiva” que deveria ser levada em consideração em qualquer negociação bilateral.
Rui explica que a cadeia de reciclagem de metais será impactada pelo tarifaço porque ocorrerá um aumento de custos e menor demanda internacional. “Isso significa que o material brasileiro ficará menos competitivo no mercado norte-americano, criando sobras nos estoques globais”, argumenta.
Com o aumento da taxação, segundo Rui, a tendência é os importadores dos EUA se afastarem do alumínio primário brasileiro, o setor de reciclagem poderá sentir menos procura externa e verá o excesso de oferta pressionar os preços domésticos. Ou seja, isso pode contribuir para os preços deste metal baixarem no Brasil.
O impacto do tarifaço e da retaliação
E não vai parar por aí. O executivo lembra também que caso ocorra o aumento das tarifas em insumos importados pelos recicladores, como equipamentos, peças e produtos derivados, vai impactar o funcionamento das empresas voltadas à logística e processamento de sucata. O presidente Lula assinou, há dois dias, um decreto estabelecendo como o Brasil poderá retaliar as taxas impostas por Trump.
Ainda de acordo com Rui, a futura taxação do aço enviado pelo Brasil aos EUA pode provocar uma redução de demanda por sucata e produtos semiacabados brasileiros, pressionando o setor siderúrgico brasileiro. Já a taxação do cobre também pode afetar as exportações brasileiras deste metal e impactar a coleta de sucata para a reciclagem.
O executivo acredita que com as futuras taxações haverá uma redistribuição global de rotas, “com o mercado dos EUA menos acessível, compradores americanos podem intensificar importações de sucata canadense, mexicana ou até mesmo europeia – deixando o produto brasileiro sem espaço”.
Ele afirma que mudanças drásticas como essa costumam gerar tanto incerteza quanto retração em decisões de investimento no setor, sobretudo em pequenas recicladoras, que dependem de estabilidade para manter operações. Ele cita, por exemplo, um reciclador, em Minas Gerais, que vende alumínio reciclado para os EUA pode ter que buscar novos mercados – como México ou Europa – ou vender internamente com descontos, reduzindo suas margens de lucro.
“O tarifaço anunciado tende a enfraquecer a demanda externa por metais brasileiros, pressionar os preços domésticos e exigir rápida adaptação da cadeia produtiva — sobretudo em setores como alumínio, aço e cobre”, conta Rui. E aconselha: “a melhor escolha dentro de um contexto estratégico e responsável é buscar um diálogo construtivo com os Estados Unidos, com foco na redução de impactos antes que eles se consolidem, construindo o entendimento das necessidades mútuas.
O entendimento, ainda de acordo com Rui, pode preservar empregos, investimentos e a estabilidade de uma cadeia de reciclagem que é modelo em muitos aspectos.
