Quarta-feira, 4 de Março de 2026

Reciclar ainda é exceção no Brasil

De todos os materiais utilizados no planeta atualmente, apenas 6,9% vêm da reciclagem – isso significa que os restantes 93,1% são produzidos a partir de matérias-primas virgens, retiradas da natureza. Mesmo com todos os crescentes apelos por sustentabilidade e a necessidade urgente de agir contra o aquecimento global, o atual índice de reciclagem é menor do que o registrado há três anos, 7,2%.

Esses dados, que fazem parte do Circularity Gap Report 2025, recém-divulgado pela consultoria Deloitte e a organização Circle Economy, evidenciam o quanto a humanidade ainda não consegue lidar adequadamente com os resíduos que produz. Embora alguns países já tenham alcançado índices de reciclagem acima de 50%, a exemplo de Alemanha, França e Itália, a maioria patina em patamares bem inferiores.

É o caso do Brasil, onde apenas 8,3% das 81 milhões de toneladas de resíduos urbanos geradas anualmente chegam à reciclagem, de acordo com dados da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema). Cada brasileiro produz, em média, 382 kg de resíduos sólidos por ano, o que significa pouco mais de um quilo por dia.

O destino do material que não vai para reciclagem no Brasil são os aterros sanitários (50,3%), a queima nas propriedades (5,8%) e a disposição final inadequada, especialmente nos lixões a céu aberto (35,6%). Ou seja: mesmo com a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) vigente há 15 anos, apenas 8,3% dos resíduos que o País produz vão para a reciclagem e 41,4% do restante continua recebendo destinação ambientalmente incorreta.

Todos podem fazer mais
O presidente da Abrema, Pedro Maranhão, enfatiza que o problema brasileiro não está na legislação sobre a gestão dos resíduos sólidos, que é considerada avançada. “Mas é preciso que as autoridades, sobretudo no âmbito municipal, respeitem a apliquem as leis e que, por seu lado, o Ministério Público e os Tribunais de Contas tomem as devidas medidas legais contra os administradores que ignoram as leis e continuam despejando irregularmente os resíduos em lixões, cometendo crime ambiental continuado”, ele avalia. De acordo com o prazo estabelecido pela PNRS, os lixões deveriam ter sido extintos no País no ano passado, mas ainda há centenas deles em funcionamento.

De acordo com as estatísticas da Abrema, os serviços de gerenciamento de resíduos sólidos urbanos (que abrangem varrição de vias e limpeza de áreas públicas, além de coleta, transporte, tratamento e disposição final dos resíduos) demandam aos municípios brasileiros despesas anuais na casa de R$ 34,7 bilhões, média de R$ 163,92 por habitante. Adicionando-se à conta gastos privados de R$ 2,3 bilhões, o total chega a R$ 37 bilhões, acréscimo de 9,4% em comparação ao ano anterior.

Pode-se atribuir boa parte da responsabilidade pelo cenário brasileiro à indústria – que, além da baixa eficiência em reduzir o volume de material produzido, contribui menos do que deveria para o esforço da reciclagem, mesmo com as iniciativas de logística reversa desenhadas para determinados tipos de materiais. Outras partes também precisam evoluir: o poder público não se mostra capaz de implantar iniciativas na velocidade e na dimensão necessárias, ao mesmo tempo em que parcela considerável da população não encontra condições adequadas ou não dá a devida importância à missão de reduzir o consumo e reciclar o que é possível.

Para aumentar o índice de reciclagem, é preciso encontrar equações que tornem o aproveitamento de resíduos interessante para todas as partes envolvidas. “Ou seja: que o material coletado tenha preço adequado no mercado em que é vendido, e que os trabalhos de coleta, de cata e de segregação sejam devidamente recompensados”, diz Maranhão.

O Brasil tem um exemplo de cadeia de reciclagem bem-sucedida: as latas de alumínio para bebidas. No ano passado, o índice de reciclagem desse material no País alcançou 99,7%, envolvendo 397 mil toneladas. É um resultado que se explica, essencialmente, pelo fato de que a remuneração oferecida pelo trabalho de coleta e pelo material coletado é suficiente para atrair catadores autônomos e cooperativas.

 

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