Distribuidoras de energia melhoram atendimento de emergência no país
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Mesmo com o aumento de temporais e eventos climáticos extremos, as principais distribuidoras de energia elétrica do país conseguiram melhorar o desempenho no atendimento a emergências. Dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) mostram que, entre novembro de 2024 e março de 2025, período de chuvas mais intensas, o tempo médio que as empresas levaram para restabelecer a energia caiu de 578 para 457 minutos em relação ao mesmo período do ano anterior.
Esse tempo é medido por um indicador chamado TMAE, sigla para Tempo Médio de Atendimento Emergencial. Ele mostra quantos minutos, em média, uma concessionária leva para religar a luz depois de uma queda não planejada no fornecimento. Na prática, quanto menor o TMAE, mais rápido o consumidor volta a ter energia.
Ele exclui as chamadas “situações de emergência” – como ciclones, alagamentos extremos ou eventos fora do controle operacional, os chamados “expurgos”. Ou seja, eventos como os apagões enfrentados pela Enel – que deixaram milhões sem energia por quase uma semana em São Paulo – ou as chuvas no Rio Grande do Sul que atingiram as áreas de concessão da RGE e da CEEE não entram no cálculo.
Porém, o dado inclui o chamado “dia crítico”, ou seja, o dia com o maior número de desligamentos registrado em cada mês, o que mantém o indicador sensível à realidade climática enfrentada pelos consumidores. Os dados consideram apenas concessionárias que atendem mais de 500 mil unidades consumidoras.
Concessionárias como Enel São Paulo e Light diminuíram o tempo de atendimento. A Enel SP reduziu o tempo de 911 minutos para 454 minutos entre os períodos comparados – redução de 50%. Já a Light, que atende o Rio de Janeiro, diminuiu o tempo médio de restabelecimento de 1.127 minutos para 692 minutos (queda de 38%).
<span> Ampliamos a articulação das concessionárias com os órgãos públicos” </span> — Sandoval Feitosa
Em nota, o presidente da Enel Distribuição São Paulo, Guilherme Lencastre, disse que as medidas implementadas para reforço do plano de operações trazem os primeiros resultados no tempo de atendimento em São Paulo neste verão, mesmo com aumento das ocorrências no período.
“Contratamos 1,2 mil profissionais de campo desde o ano passado para agilizar o atendimento aos clientes e passamos a mobilizar, de forma mais rápida, as equipes nas contingências. Além do reforço estrutural do plano operacional, intensificamos manutenções preventivas e podas.”
Ao Valor o diretor-geral Sandoval Feitosa diz que a agência ampliou as fiscalizações preventivas em âmbito nacional voltadas ao serviço de Atendimento às Ocorrências Emergenciais, com o objetivo de definir metas de redução dos tempos de atendimento e verificar a efetividade dos planos de contingência das empresas.
“Em outra ação, atuamos no aprimoramento de regras com iniciativas para promover maior resiliência das redes, manejo vegetal nas cidades, ampliação dos canais de comunicação com os consumidores, poder público e exigência de maior articulação das concessionárias com os órgãos públicos como corpo de bombeiros, polícias militares, prefeituras e defesa civil, por exemplo”, diz Feitosa.
Por outro lado, o número de ocorrências de falta de energia cresceu em várias áreas. A Enel SP, por exemplo, registrou aumento de 34% no número de ocorrências em relação ao mesmo período do ano anterior. A Light viu esse índice subir 25%. Já a CEEE Equatorial viu aumentar em 39,5% o número de ocorrências, mesmo assim reduziu o tempo de atendimento.
Os dados indicam que os desafios de infraestrutura continuam significativos. Em regiões com urbanização acelerada, como a Grande São Paulo e a região metropolitana do Rio, as redes elétricas enfrentam maior pressão, com transformadores sobrecarregados, podas irregulares e ocupações próximas à rede. Para especialistas, isso expõe os limites da infraestrutura elétrica frente ao avanço da urbanização, à maior exposição climática e à necessidade de investimentos estruturais.
“A regulação da qualidade do serviço no setor elétrico tem mostrado importantes avanços, quem sabe impulsionados pelas últimas perturbações, em especial da Enel SP. Um exemplo é o TMAE, que mostra melhoras importantes em várias distribuidoras”, diz o ex-diretor da Aneel e colunista do Valor, Edvaldo Santana.
Das 33 concessionárias analisadas, apenas sete apresentaram aumento no tempo de atendimento: Energisa Sergipe, Neoenergia DF, Energisa Paraíba, Amazonas Energia, Equatorial Maranhão, Energisa Tocantins e Equatorial Piauí.
Ao mesmo tempo, a maioria dessas empresas registrou também redução no número de ocorrências – o que indica que, mesmo com menor pressão sobre a rede, elas não conseguiram responder com mais agilidade (ver quadro acima).
A Neoenergia disse que as situações de eventos extremos devido às fortes chuvas geraram interrupções de maior complexidade, ocasionadas, principalmente, por 90% a mais de rajadas de vento. Em geral, são elas que geram mais impacto e danos de maior magnitude. Apesar disso, a empresa diz que segue em patamar positivo, abaixo da média Brasil. A empresa disse também que vem melhorando ano a ano a qualidade do fornecimento no Distrito Federal, tendo reduzido o TMAE em 12% na comparação entre os anos de 2023 e 2024, período de 12 meses.
A Equatorial destaca que fortes tempestades afetaram localidades remotas e de difícil acesso, exigindo atuações complexas de recuperação da rede elétrica – muitas vezes em áreas alagadas ou com limitações logísticas -, o que naturalmente impactou os prazos médios de restabelecimento. A empresa lembra que o Brasil possui diferentes regimes climáticos, com comportamentos sazonais distintos em cada região. Por isso, a comparação de indicadores em períodos curtos – e não na média anual – pode gerar distorções na análise do desempenho das distribuidoras.
A Energisa disse que esse indicador não deve ser utilizado para uma simples comparação entre as empresas, tendo em vista as diferenças entre áreas de atuação em um país continental como o Brasil. Algumas são, majoritariamente, urbanas e outras têm características mais “ruralizadas”, com extensões e infraestrutura para acesso das equipes totalmente diferentes. A empresa disse ainda que está investindo, apenas no biênio 2024 e 2025, mais de R$ 11 bilhões em suas nove distribuidoras.
Já a Amazonas Energia justifica que enfrenta dificuldades específicas no atendimento emergencial devido às condições extremas da região, marcadas por cheias e secas severas. Esses fenômenos afetam diretamente a infraestrutura elétrica, dificultando o acesso a áreas alagadas e provocando sobrecarga do sistema durante estiagens.
O CEO da empresa de meteorologia Tempo OK, João Hackerott, frisa que os períodos analisados correspondem à estação chuvosa, mas apresentaram fatores climáticos distintos que influenciaram a variabilidade do regime de chuvas e temperaturas.
“O primeiro período (novembro de 2023 a março de 2024) foi impactado pelo fenômeno El Niño, que intensificou as chuvas na região Sul e reduziu o volume pluviométrico nas regiões Norte e Nordeste (…). Já o segundo período (novembro de 2024 a março de 2025) foi caracterizado por condições de neutralidade, com o início de uma La Niña fraca. Apesar disso, o fenômeno não gerou os efeitos típicos – como aumento significativo das chuvas no Norte e Nordeste e estiagem no Sul -, mas atenuou parte das anomalias provocadas pelo El Niño anterior, especialmente no que se refere à redução das temperaturas elevadas.”
O presidente da Abradee, associação que representa as distribuidoras de energia, Marcos Madureira, diz que a melhora é resultado do aumento de investimentos. Segundo o dirigente, nos últimos três anos, os aportes quase dobraram, para a casa de R$ 35 bilhões por ano, sendo 40% em melhoria e modernização da rede.
Madureira frisa que as concessionárias ampliaram a colaboração, com destaque para o reforço no compartilhamento de equipes, como foi observado durante a tragédia no Rio Grande do Sul, em 2024.
