Empresas buscam mais flexibilidade para atender a demanda por fontes limpas
Pela segunda vez o Brasil fará um leilão de reserva de capacidade em que irá contratar potência elétrica despachável de hidrelétricas e termelétricas a gás natural e a biocombustíveis, que atuarão com o objetivo de dar flexibilidade ao Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). O certame, em junho, vai contratar disponibilidade de potência de nove empreendimentos de geração térmica (seis de usinas já existentes e três de novos empreendimentos) e de ampliação de capacidade de hidrelétricas existentes.
Já para o segundo semestre, está previsto o primeiro leilão de baterias de armazenamento, que deve permitir que a energia produzida por fontes intermitentes, como eólica e fotovoltaica, possa ser armazenada e despachada nos horários de maior demanda.
Há um consenso entre especialistas de que é necessário prover maior flexibilidade ao sistema, mas um aumento da participação de térmicas fósseis no horizonte até 2045 traz questionamentos sobre emissões de gases de efeito estufa. O Brasil firmou compromisso no Acordo de Paris para atingir a neutralidade de carbono até 2050, e cada contrato no leilão prevê de 10 a 15 anos de suprimento de energia, com início entre 2025 e 2030. A favor das térmicas, está o argumento da segurança energética, visto que a energia produzida por elas pode ser despachada rapidamente, na medida da demanda.
“O principal objetivo de um leilão de reserva de capacidade é assegurar a oferta de energia nos picos de demanda. Para isso, ainda dependemos da energia térmica”, diz Ricardo Assumpção, sócio líder de sustentabilidade da consultoria EY. Nas últimas duas décadas, a expansão das fontes eólica e solar reduziu a participação das hidrelétricas na matriz brasileira, que deve cair ainda mais até 2034, indo de 55,8% para 46,7%. Como elas faziam parte da estratégia de backup do sistema, esse vácuo deverá ser ocupado pelo mix de alternativas proposto nos leilões.
Para Rosana Santos, diretora-executiva do Instituto E+ Transição Energética, o uso de térmicas a gás natural deve ser cauteloso, por razões econômicas e ambientais. “É um recurso importante, mas tem que ser usado com inteligência, porque acaba encarecendo a tarifa final e, pior, sujando a nossa matriz num momento em que o mundo estará buscando eletricidade mais limpa”, diz. Ela avalia que alternativas seriam a resposta da demanda – mecanismo que consiste na redução do consumo por grandes consumidores em determinados períodos, de modo que a energia possa ser destinada a outras cargas – e a melhor utilização dos reservatórios das hidrelétricas.
Empresas se preparam para participar do leilão de reserva de capacidade com vistas à expansão da geração. Caso da Gás Natural Açu (GNA), operadora da termelétrica Novo Tempo, que passou a produzir em 2021. “A GNA I estabilizou o fornecimento de energia para o país, tendo papel estratégico para mitigar o risco que o país enfrentava em 2021, frente à maior crise hídrica dos últimos 90 anos”, diz Emmanuel Delfosse, CEO da GNA.
Um leilão [de armazenamento] trilha a mesma estratégia adotada para as eólicas” — Franklin Miguel
A companhia se prepara para começar a operar o complexo GNA II. De acordo com Delfosse, o gás natural é uma fonte alinhada com a transição energética e é possível reduzir emissões com tecnologias para minimizar o impacto da geração térmica, como o uso do ciclo combinado entre turbinas a gás e a vapor, com eficiência energética da ordem de 60%.
O armazenamento em baterias, alvo do leilão do segundo semestre, é visto como um passo necessário para forjar esse mercado no país, atrasado em comparação com países como China e Estados Unidos. Para analistas, esse atraso decorre mais de questões regulatórias do que tecnológicas. “Hoje no país existem diferentes visões sobre como um sistema de armazenamento de energia deve ser classificado; se como ativo de transmissão, de geração ou de consumo. Ele é um pouco dos três ao mesmo tempo”, diz Igor Cadete Fonseca, responsável pela área de energia em project finance do Santander Brasil.
A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) reconheceu a lacuna regulatória e abriu consultas públicas sobre o tema. Estima-se que o leilão possa movimentar cerca de US$ 450 milhões em investimentos, com a expectativa de agregar 300 megawatts (MW) em baterias e sistemas de armazenamento ao setor elétrico brasileiro. Para Fonseca, o leilão deve servir como um catalisador do setor, ajudando a reduzir custos, destravar investimentos e a desenvolver parque industrial e cadeia de suprimentos.
Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), as baterias de íon-lítio registraram redução de 90% nos custos entre 2010 e 2023, com preços caindo para menos de US$ 140/kWh. São cerca de R$ 800/MWh, contra custos em torno de R$ 250/MWh, no caso de novas hidrelétricas, e R$ 300/MW/h, para térmicas a gás natural, compara Franklin Miguel, CEO da Electra Energy. “Seu custo ainda não é competitivo, mas a realização de um leilão específico para essa tecnologia trilha a mesma estratégia adotada para as eólicas”, diz ele, citando estímulos fiscais. Segundo Miguel, o volume de investimentos em armazenamento vai depender da demanda do leilão de reserva de capacidade, o que já gera apreensão no mercado.
Marcelo Rodrigues, vice-presidente de negócios, marketing e inovação da UCB Power, afirma que o certame pode contribuir para acelerar os negócios no país, mas teme que o leilão de reserva de capacidade possa desidratar o volume de contratos para armazenamento, deixando para o setor de baterias um “prêmio de consolação”. “O Brasil não pode ficar para trás, ainda mais com a matriz renovável que temos. Falta vontade política para definir essa agenda como prioritária”, avalia.
