Com chuvas mais escassas, reservatórios reduzem recuperação e preços da energia disparam
Os reservatórios do país pararam de encher e os preços da energia dispararam no mercado livre, segmento em que o consumidor pode escolher o fornecedor e as condições contratuais do suprimento da eletricidade. Do ponto de vista energético, contudo, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) tem reiterado que não há riscos de suprimento, considerando os níveis dos reservatórios.
Em 2024, o país viveu uma das secas mais severas da série histórica do país em 83 anos, gerando preocupações sobre como seria o armazenamento dos reservatórios. As chuvas vieram com o início do período úmido, em novembro, e as hidrelétricas voltaram a guardar mais água. Só que essas chuvas perduraram até janeiro, ficando mais escassas em fevereiro e março.
No lugar das chuvas, vieram ondas intensas de calor, com durações mais longas. As projeções oficiais e de empresas do setor indicam baixa probabilidade de grandes volumes de chuvas nos próximos meses. De acordo com o ONS, as previsões apontam para um possível final antecipado do período tipicamente úmido, que normalmente vai de novembro a abril.
Vazões dos rios abaixo da média
De acordo com boletim semanal da operação do sistema do ONS, divulgado na sexta-feira (14), a perspectiva é de que as vazões dos rios estejam abaixo da média em todos os quatro submercados no fim de março.
A energia natural afluente (ENA), como é tecnicamente conhecida a vazão dos rios, é reflexo direto do volume de chuvas e é medida em percentual da Média de Longo Termo (MLT). Acima de 100% da MLT, as vazões estariam acima da média histórica, o que não é o caso.
Segundo o ONS, o Norte deve fechar março com 98% da MLT, enquanto o eixo Sudeste/Centro-Oeste deve registrar ENA de 56% da MLT; seguido pelo Sul (45% da MLT) e Nordeste (24%) da MLT.
O Norte deve fechar março com 95,8% de armazenamento, enquanto o Nordeste deve registrar 77,6% e o eixo Sudeste/Centro-Oeste, 67,5%. O Sul é a região que deve ter níveis mais baixos, com 36,7%.
“As perspectivas para os próximos meses são de pleno atendimento às demandas do país. Estamos com os reservatórios em condições positivas e a política operativa tem buscado preservar os recursos hídricos. As condições de afluência com uma provável antecipação do período seco estão sendo acompanhadas com atenção”, afirmou Marcio Rea, diretor-geral do ONS, em comunicado.
Acionamento de térmicas
Com esse cenário, o resultado direto foi uma elevação dos preços médios da energia no mercado livre. Durante mais de dois anos, entre 2022 e meados de 2024, o preço de liquidação das diferenças (PLD), usado como referência para negócios no mercado livre, situava-se no piso regulatório de R$ 61,07 por megawatt-hora (MWh).
Com a seca de 2024, o PLD se descolou do piso. Além da alta, o preço apresentou volatilidade. Por ser de base horária, os preços têm subido fortemente nos momentos em que o sol se põe, o que faz com que cerca de 35 gigawatts (GW) de geração solar deixem o sistema.
Para evitar desestabilizar o sistema, o ONS aciona térmicas para suprir a ausência da geração solar fotovoltaica.
Consumo de energia nas ondas de calor
Além disso, as ondas de calor que ocorreram no país entre fevereiro e março elevaram o consumo – a ponto de se atingir recordes de demanda instantânea – o que, eventualmente, exigiu acionamento térmico por motivos energéticos.
Houve ainda casos fortuitos, como a queda de parte de uma linha de transmissão que escoa a energia de Belo Monte, deixando a linha desativada por alguns momentos.
Com isso, o resultado é de PLD médio acima de R$ 300/MWh no submercado Sudeste/Centro-Oeste, o principal do país, em várias semanas. O reflexo disso é que contratos de energia também têm se situado acima de R$ 300/MWh, chegando até a se aproximar de R$ 400/MWh, dependendo dos parâmetros de cálculo, de acordo com comercializadoras que divulgam projeções de preços a clientes.
Por exemplo, a Paraty Energia apontou que, no dia 4 de fevereiro, o preço da energia de hidrelétricas e térmicas, conhecida como “energia convencional” na região Sudeste, para início de suprimento em março deste ano, era de R$ 93/MWh. Pouco mais de um mês depois, no dia 11 de março, o valor para este contrato passou para R$ 317/MWh, alta de 241%.
