Terça-feira, 7 de Abril de 2026

DE-CIX busca ampliar leque de opções de conexão à web no país

 Em vez de depender unicamente das operadoras de telecomunicações, as empresas estão cada vez mais se conectando diretamente aos chamados “pontos de troca de tráfego”, que interligam diretamente redes e servidores de diferentes provedores de internet. Atenta a essa tendência e a outras oportunidades de negócios no Brasil, a alemã DE-CIX inicia nesta terça-feira (18) a operação de seus dois primeiros pontos de interconexão (IXPs) na América Latina, no Rio de Janeiro e em São Paulo. 

 As duas capitais estão diretamente ligadas, além de conectadas a outros IXPs da empresa em Nova York, Lisboa, Madri e Frankfurt. A conexão direta com essas cidades deve resultar em rotas de dados mais curtas, o que melhora o tempo de resposta (latência) e tende a diminuir riscos e custos. “No passado, elas [as corporações] usavam as grandes operadoras para cuidar de suas operações de TI [tecnologia da informação]. Agora, estão se envolvendo diretamente”, explica o diretor-presidente da CE-DIX, Ivo Ivanov, em entrevista ao Valor.

 A mudança é especialmente visível entre as gigantes do setor de tecnologia. “Nove anos atrás, Netflix e Apple não estavam presentes no mercado de ‘data centers’ e não dispunham de rede própria […] para distribuir o conteúdo delas”, diz o executivo. “Hoje, têm mais de 250 instalações [de TI] ao redor do mundo, sendo mais de 50 delas em conjunto”, compara. 

 A rede global que conhecemos como internet é, na verdade, constituída por 100 mil sub-redes, interconectadas entre si. Quanto maior o trajeto que um pacote de dados precisa percorrer para ir de um ponto a outro da rede mundial de computadores, maior a latência e a chance de degradação da qualidade do sinal. A presença de mais intermediários ao longo do caminho também tende a diminuir a segurança dos dados. 

 A DE-CIX, como outras operadoras de IXPs no mundo, é responsável por operar a interconexão entre essas milhares de redes. Não possui centros de dados e cabos submarinos – oferece seus serviços através dos “data centers” de parceiros locais. No Brasil, a DE-CIX assinou acordos com as empresas Elea, Ascenty e Equinix. “Um grande problema brasileiro é o custo do transporte de dados, especialmente em mercados como Brasília, Porto Alegre e Fortaleza”, reconhece Alessandro Lombardi, presidente da empresa de “data centers” Elea Digital. 

A rede global que conhecemos como internet é constituída por 100 mil sub-redes

 A companhia alemã interconecta milhares de operadoras, redes corporativas e provedores de conteúdo e de acesso à internet em mais de cem países. Diretor da Associação Brasileira de Internet (Abranet), Eduardo Parajo considera positiva a entrada de um novo competidor no mercado: “É bom ter mais opções, mais competição. Ajudará a dar mais resiliência [resistência a falhas na rede]”. 

 Questionado se a tendência é de que grandes clientes abram mão dos serviços das teles para se conectarem diretamente à web, Ivanov sustenta que as corporações podem até continuar a terceirizar atividades de TI, mas estão mudando seus modelos de negócio para explorar novas possibilidades abertas pelos dados. Na indústria automobilística, exemplifica o executivo, o carro conectado oferece diversas fontes potenciais de novas receitas: “Os sistemas de ‘infotainment’ [mistura de informação e entretenimento], toda a experiência digital no carro, é um mercado que vale US$ 1 trilhão”, diz o diretor-presidente da DE-CIX. “Será que elas [as montadoras] querem que esse negócio trilionário vá para a Microsoft, o Google e a Apple? Não, mas o que elas precisam fazer é […] se tornar as controladoras da jornada desses dados”, afirma. 

 A DE-CIX não divulga o valor investido para conectar os centros de dados dos parceiros brasileiros à sua plataforma. Ivanov admite que a quantia não é relevante e prefere destacar o impacto dos novos IXPs nos serviços de computação em nuvem e na inferência de modelos de inteligência artificial (a capacidade de raciocinar e tirar conclusões a partir de dados novos). 

 Fonte do setor que prefere não ter seu nome divulgado alerta, porém, que a concorrente brasileira IX.br tem grande capilaridade e preços competitivos, o que exigirá da DE-CIX um esforço redobrado para ganhar mercado no país. 

 

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