Análise: Leilão de energia expõe estratégia de distribuidoras frente a incertezas
Os leilões de energia existente (empreendimentos já em operação comercial) promovidos pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) e pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) não apenas renderam economia de R$ 1,2 bilhão na conta de luz, mas também revelaram aspectos importantes sobre o comportamento das distribuidoras em um cenário marcado pelo excesso de energia em seus portfólios.
Nos últimos anos, o excesso de energia na carteira das concessionárias foi um problema central que se explica na base de clientes em declínio. A migração de grandes consumidores para o mercado livre cria um descompasso entre os contratos já firmados e a demanda efetiva.
Além disso, o crescimento de sistemas de geração própria (geração distribuída), como a solar, diminui ainda mais a demanda das distribuidoras por energia. Essa tendência reduz a necessidade de novos contratos, especialmente de longo prazo.
A previsão do mercado era de que essa situação se reverteria a partir de 2025. O resultado do leilão mostrou que essa estimativa está alinhada com a realidade, já que o certame para fornecimento em janeiro do ano que vem movimentou R$ 4,6 bilhões, com 17 distribuidoras comprando energia de 31 grupos vencedores.
Esse resultado foi um dos maiores certames dessa modalidade nos últimos anos e reflete a necessidade de suprimento imediato já para entrega em 2025, mas com foco em preços competitivos devido à pressão para reduzir custos em meio ao excesso de contratação.
“O mais recente leilão de energia existente obteve sucesso significativo, com uma demanda apresentada superior ao dobro da demanda dos leilões de 2023. Diante dessa alta demanda, houve uma redução nos deságios observados, mantendo-se um preço médio de R$ 163/MWh, valor em linha com os contratos de prazo semelhante que temos observado no mercado. Não obstante uma redução no deságio médio, os certames promoverão uma economia de mais de R$ 1 bilhão”, analisa o diretor de corporate and investment bank do Banco do Brasil, João Fruet.
Por outro lado, o resultado do leilão destinado ao suprimento a partir de 2026 (chamado de A-2) demonstra maior cautela das distribuidoras em comprometer volumes futuros. Já o evento para suprir energia em 2027 (chamado de A-3) encerrou sem propostas. Isso pode indicar insegurança das distribuidoras em assumir novos compromissos de longo prazo em um cenário de mercado marcado por incertezas e mudanças regulatórias e estruturais.
A combinação de crescimento econômico modesto, mudanças no perfil de consumo e um cenário regulatório que exige níveis mínimos de contratação leva as distribuidoras a serem cautelosas em compromissos futuros.
O CEO da consultoria Envol Energy, Alexandre Viana, explica que este leilão foi especialmente relevante, pois as distribuidoras precisam recompor o portfólio de contratos impactados pela mudança no modelo de remuneração das usinas da Eletrobras. Após a privatização, essas usinas deixaram de ser remuneradas por meio de cotas fixas para atender às distribuidoras e passaram a vender energia no mercado, o que reduziu a disponibilidade de contratos já garantidos para as empresas do setor.
Além disso, a expiração de outros acordos contribuiu para a necessidade de novas contratações. Com uma oferta significativa disponível, Viana acredita que haverá uma competição acirrada entre os vendedores.
Os leilões de energia existente (empreendimentos já em operação comercial) são realizados anualmente, com a finalidade de complementar a demanda de contratação das distribuidoras, conhecido como mercado regulado, no jargão do setor. Esses contratos ajudam a planejar o fornecimento de energia para atender à demanda futura de consumidores e garantir a eficiência do sistema elétrico.
O diretor da Aneel e relator dos leilões, Fernando Mosna, traz uma avaliação histórica ao lembrar que desde os primeiros leilões, em 2004, buscava-se diversificar a matriz, que já era renovável, com 76% de participação de hidrelétricas. “Hoje, as fontes solar e eólica, que na época eram inexistentes, respondem por 33% da nossa matriz. Esse fato mostra como o planejamento do setor elétrico é importante e como a atuação conjunta dos entes consegue alcançar grandes feitos como os que vimos nos últimos 20 anos”, diz.
