Sábado, 8 de Agosto de 2026

Tráfego dispara, mas redes sustentam transmissão da Copa na Internet

A consolidação de plataformas de streaming – sobretudo o YouTube – na transmissão da Copa do Mundo de 2026 foi uma das marcas da competição, mas também representou um desafio de planejamento para operadoras de telecom e agentes do ecossistema de Internet. A cadeia de conectividade, contudo, avalia que as redes brasileiras deram conta do desafio.

Durante a Copa, a exclusividade da grade completa de jogos na CazéTV resultou em recordes consecutivos de maiores lives da história no YouTube, incluindo pico de 24,2 milhões de aparelhos simultâneos na transmissão online. Ao TELETIME, operadoras como Alloha Fibra, TIM, Vero e Vivo detalharam mudanças na dinâmica de tráfego em meio ao evento.

Em alguns casos, o incremento atingiu 90%, com o tráfego chegando a multiplicar em certas aplicações. A preparação para a Copa envolveu atualização de equipamentos, ampliação de capacidade e parcerias de CDN com provedores de conteúdo – como Google (YouTube) e Globo, que também atingiu marcas expressivas com o Globoplay no período.

“A Copa do Mundo mostrou uma nova realidade na questão da transmissão de eventos esportivos. Um grande número de pessoas foi apresentada a uma nova forma de transmissão e isso não vai retornar ao que era antes. Nós subimos um degrau”, resumiu Julio Sirota, gerente de Infraestrutura do IX.br.

A própria estrutura de pontos de troca de tráfego atingiu um novo recorde no Brasil durante a Copa: o IX.br alcançou 55 Tbps de de tráfego agregado em 25 de junho, mesma data da transmissão de seis partidas da competição. Na prática, houve um ganho da ordem de 10% nos picos registrados.

No caso da Vero, a média de aumento de tráfego durante os jogos da Copa foi de 50%, com picos de 90% em jogos de maior interesse e de mais de 100% no caso do Globoplay, relatou o CTO da operadora, Rodrigo Rescia. “Tudo isso pode ter causado algum stress, mas o balanço foi de muito sucesso. Telecom não foi um ponto que incomodou na Copa”.

Rescia relata que a preparação para o evento começou ainda em 2025. Ela envolveu a ampliação de 795 interfaces de rede, acordos temporários que chegaram até a dobrar o trânsito IP contratado, diversificação de backbone (para acesso via infraestrutura enterrada e cabos OPGW) e ampliação de contratos de peering (PNI) ao lado de provedores.

Já na Alloha Fibra, foram relatados picos de 1 Tbps de tráfego agregado durante o evento. O planejamento também envolveu a ampliação da capacidade de backbone e backhaul, novos acordos de peering e a aceleradores de tráfego em pontos estratégicos (como Fortaleza e Rio de Janeiro), apontou Décio Feijó, vice-presidente de planejamento de redes e engenharia da empresa.

CDN para transmissão ao vivo
Mas uma das iniciativas mais relevantes reportadas pelos provedores ocorreu na camada de Content Delivery Network (CDN), com a distribuição pelo Google de servidores com arquitetura de cache otimizada para transmissões ao vivo. Os equipamentos foram instalados em pontos de presença de provedores de Internet e também nos pontos de troca de tráfego do IX.br.

Mais eficientes, os servidores são capazes de entregar até 200 gigabits por segundo (Gbps) de tráfego em cada nó, ou cinco vezes mais que soluções comuns. No IX.br, toda a capacidade de CDNs otimizados para transmissões ao vivo foi usada. Relatos também apontam que o YouTube foi obrigado a acionar servidores fora do País, em momentos de esgotamento da capacidade no Brasil.

O modelo, contudo, foi classificado como um movimento relevante pelas operadoras. “O principal aprendizado [da transmissão da Copa] foi o reforço da importância de se ter o processamento de conteúdo ‘live’ nas bordas (edge) da rede”, resumiu Décio Feijó, da Alloha. “Esse evento gerou insights para ajuste nas especificações e desenho de nossos projetos de expansão e modernização”.

Rede móvel
A mudança de comportamento durante os jogos da Copa também afetou as redes móveis. Ao TELETIME, a Vivo reportou um tráfego de mais de 10 mil Terabytes (TB) por dia na rede móvel, impulsionado principalmente pelo uso de plataformas de streaming de vídeo. Na rede total (fixa e móvel), o tráfego no universo de apps de streaming cresceu mais que três vezes.

A TIM reportou marca similar: o tráfego dos clientes TIM nas plataformas de streaming, em média, mais que triplicou durante os jogos do Brasil. Como preparativos, a empresa destaca a densificação do 5G nas regiões de maior demanda, a modernização do transporte em fibra e IP e, mais uma vez, parcerias com plataformas de streaming.

“Essa colaboração contribui para otimizar a entrega de conteúdo em alta definição e ajuda a garantir uma experiência mais fluida e estável, inclusive nos momentos de pico extremo de acessos simultâneos”, relatou por e-mail Marco Di Costanzo, vice-presidente de desenvolvimento tecnológico da TIM.

Já a Vivo notou que “também foi observado maior uso em mobilidade, com clientes acompanhando os jogos fora de ambientes residenciais”, ancorados na rede móvel. A Claro, por sua vez, destacou o papel o crescimento do seu serviço Claro tv+ durante o evento.

Delay
Os profissionais ouvidos por TELETIME apontaram que os jogos do Brasil não foram necessariamente os maiores causadores de tráfego. “Tivemos exemplos de jogos de Argentina, Espanha, França e Portugal com bastante pico”, exemplificou Rodrigo Rescia, da Vero. A partida entre Argentina e Suíça, em 11 de julho, foi uma das que chamou atenção do time de engenharia da provedora.

Vale notar que 29 das 30 maiores lives da história do YouTube foram registradas durante a transmissão brasileira da Copa na CazéTV. No top 5, apenas uma das partidas envolveu a Seleção Brasileira, segundo levantamento do portal Notícias da TV.

A avaliação é que nos jogos do Brasil, a atenção foi dividida com a transmissão tradicional da radiodifusão. Uma das razões é o atraso (delay) inerente das transmissões via Internet. Ainda assim, foram verificadas melhorias no indicador, na comparação com a Copa anterior. Em alguns testes, foi verificado delay de apenas cinco ou seis segundos, apontou Júlio Sirota, do IX.br.

A entrega eficiente do conteúdo ao vivo, contudo, não depende apenas da rede do provedor, sendo influenciada também pela topologia adotada pelos provedores de conteúdo e mesmo por fatores como o posicionamento dos roteadores Wi-Fi na casa dos clientes e status dos dispositivos finais utilizados pelo consumidor, notam os especialistas.

Com delay ou sem, a avaliação é que as transmissões esportivas no streaming vieram para ficar, devendo alcançar em breve novos grupos de mídia e competições populares. O próximo grande desafio está marcado para o ano que vem. “A Copa do Mundo Feminina [de 2027] será aqui, e vai ter um apelo muito grande”, destacou Rodrigo Rescia, da Vero.

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