Quarta-feira, 9 de Setembro de 2026

Teles correm o risco de bancar redes e entregar o valor a terceiros

As operadoras de telecomunicações venceram a corrida pela implantação de redes, mas não necessariamente a disputa pela captura do valor criado por essa infraestrutura. A avaliação é de Ignacio Perrone, diretor de pesquisa de Tecnologia da Informação e Comunicação da Frost & Sullivan, que alertou para o risco de as teles concentrarem investimentos em conectividade enquanto empresas de outras camadas da cadeia ficam com as receitas e as margens geradas sobre as redes.

“O risco já não é ficar sem rede. O risco é ficar apenas com a rede”, afirmou Perrone durante apresentação no Telco Transformation, no Rio de Janeiro*. Para ele, 5G, fibra óptica, computação de borda e redes privadas continuam indispensáveis, mas deixaram de ser suficientes para assegurar diferenciação e retorno às operadoras.

Segundo o executivo, a indústria manteve a capacidade de investir, inovar e atender ao crescimento da demanda, inclusive durante a pandemia. O desafio passou a ser transformar essa infraestrutura em resultados financeiros. “A rede é necessária, estratégica e indispensável, mas não garante a captura de valor”, resumiu.

Quatro vazamentos de valor
Perrone identificou quatro fatores que dificultam a apropriação, pelas operadoras, do valor produzido por suas redes: problemas de monetização, complexidade operacional, comoditização dos serviços e captura de margem por terceiros.

Na avaliação do diretor da Frost & Sullivan, esses fatores funcionam como um sistema. Portanto, atuar apenas sobre um deles não resolve o problema. A expansão da infraestrutura, por exemplo, acrescenta novas tecnologias e gera ganhos de capacidade, mas também eleva a complexidade ao manter em operação diferentes gerações de rede.

Ao mesmo tempo, produtos baseados somente em conectividade tendem a se tornar indiferenciados. Nesse cenário, integradores, plataformas digitais e provedores de nuvem conseguem ocupar posições mais próximas das necessidades dos clientes e capturar uma parcela maior das receitas.

“O valor não desapareceu. O valor migrou”, afirmou Perrone. Segundo ele, essa migração ocorreu em direção a camadas como segurança, nuvem, IA, análise de dados, aplicações e soluções relacionadas diretamente aos resultados das empresas.

Cliente compra produtividade, não banda
O reposicionamento das teles exige uma mudança na forma de apresentar e comercializar a rede, segundo o executivo. Em vez de vender atributos técnicos, as operadoras precisam relacioná-los aos efeitos sobre os negócios dos clientes.

Nesse modelo, largura de banda deve ser traduzida em produtividade; baixa latência, em segurança operacional; disponibilidade, em continuidade dos negócios; e cibersegurança, em confiança de clientes, empregados, administradores e reguladores.

“O cliente não compra conectividade. Compra resultados de negócios”, disse. Entre esses resultados estão automação, resiliência, produtividade e redução de interrupções.

O segmento empresarial ocupa posição central nessa estratégia porque permite associar a conectividade a necessidades específicas. Perrone citou projeção da Frost & Sullivan de crescimento anual composto próximo de 25% para redes privadas, em contraste com as taxas de um dígito observadas em outras áreas do setor.

APIs podem tirar as teles da disputa por preço
Outra frente é a transformação da rede em uma plataforma programável. Ao expor capacidades por meio de APIs, as operadoras podem cobrar pelo uso de recursos específicos e reduzir a dependência da venda de acesso medida por velocidade ou volume de dados.

A Frost & Sullivan projeta crescimento anual composto próximo de 60% para as receitas com APIs entre 2025 e 2030. Perrone ponderou, entretanto, que a expansão parte de uma base pequena e classificou a previsão como ambiciosa.

A trajetória proposta pelo analista começa na oferta de acesso, avança para conectividade e serviços gerenciados e chega à comercialização de plataformas e resultados empresariais. Isso também exige a formação de ecossistemas, uma vez que as operadoras não conseguirão entregar isoladamente todos os componentes das soluções.

IA deve mudar a economia da operação
Perrone também defendeu que a IA seja aplicada para alterar a estrutura operacional das teles, e não apenas para demonstrações ou projetos isolados. Ele citou iniciativas de Orange, Lumen, Telefónica e Rakuten voltadas à redução de ruídos operacionais, automação em escala e redes orientadas por intenção.

No caso mais avançado mencionado, a Rakuten já testa agentes de IA capazes de executar tarefas e tomar determinadas decisões operacionais. Perrone comparou essa atuação à de um profissional iniciante, em contraste com sistemas usados apenas como painéis de acompanhamento.

* O jornalista viajou a convite do Conecta Latam

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