Sábado, 5 de Setembro de 2026

Teles buscam IA e B2B para crescer na América Latina

A receita de conectividade das empresas de telecomunicações cresceu 1,5% na América Latina em 2025, abaixo do desempenho registrado em outras regiões. Diante do avanço limitado do negócio tradicional, as operadoras procuram elevar a rentabilidade com IA, serviços digitais e ofertas para o mercado empresarial.

O panorama foi apresentado nesta quarta-feira, dia 19, por Sonia Agnese, analista principal da Omdia para a América Latina, na abertura do Telco Transformation LATAM, no Rio de Janeiro*. A analista também destacou a consolidação do mercado e a transferência de parte dos investimentos globais em infraestrutura das operadoras para as empresas de tecnologia.

Em escala global, a receita do setor cresceu quase 4% em 2025, o dobro dos 2% observados no ano anterior. Os serviços de conectividade avançaram 3,7%, puxados pela alta de 6,2% na banda larga fixa e de aproximadamente 4% na banda larga móvel. A receita de voz caiu 7%.

Crescimento-revenue-3.8%-2024-2025

“É um setor que está crescendo, mas cresce lentamente. O que o caracteriza é um volume elevado e uma geração de caixa importante, porque os assinantes pagam regularmente pelos serviços de conectividade”, afirmou Sonia.

América Latina cresce abaixo de outras regiões
Na América Latina, o negócio móvel ampliou a receita em 2,8%. A base de assinantes, porém, cresceu apenas 0,7%, uma das menores taxas dos últimos anos. O resultado reflete a elevada penetração do serviço, a limpeza das bases pré-pagas pelas operadoras e o avanço ainda limitado das conexões de IoT.

O ARPU móvel médio da região ficou em aproximadamente US$ 6, abaixo da média mundial de US$ 8,50. No Brasil, o indicador foi estimado em US$ 5, ante cerca de US$ 8 no México e no Chile.

ARPU-Brasil

Agnese destacou o movimento das operadoras para ampliar a participação dos planos pós-pagos e aumentar a previsibilidade das receitas. No Brasil, esses planos representam 65% da base, que cresceu 9% no último ano. O movimento também é acompanhado por ofertas convergentes destinadas a elevar a retenção dos clientes.

A adoção do 5G permanece abaixo das expectativas iniciais. A tecnologia alcançou penetração de 17% na América Latina e avança em ritmo inferior ao registrado pelo 4G. A cobrança de um valor adicional pelo acesso ao 5G, esperada no início da implantação, também não se concretizou.

Crescimento-Latam-17%

Banda larga ganha clientes, mas receita avança menos
A banda larga fixa foi o serviço de conectividade com maior crescimento global, mas a receita aumentou apenas 0,9% na América Latina. A base regional de assinantes avançou 6,2%, sem que o aumento fosse convertido na mesma proporção em faturamento.

Broadband-revenue-2024-2025-por-regiao

A Omdia relaciona o resultado à competição entre operadoras, às ofertas promocionais e à expansão dos provedores regionais de fibra. No Brasil, o ARPU da banda larga fixa ficou próximo de US$ 19 e caiu 4% em moeda local.

Apesar da pressão sobre os preços, ainda existe espaço para a expansão da infraestrutura. Somente três países latino-americanos têm ao menos metade dos domicílios conectados por fibra. Cerca de 40% dos lares da região ainda permanecem sem conectividade.

A banda larga via satélite também começa a alterar o ambiente competitivo. Na Argentina, por exemplo, as conexões por satélite já representam 3% dos acessos de banda larga. Para Sonia, a tecnologia permite atender localidades antes desconectadas, mas também passa a disputar clientes com as redes terrestres em determinados mercados.

Satelite-Starlink

Investimentos migram para hyperscalers
A expansão dos data centers e da infraestrutura para IA modificou a distribuição global dos investimentos. Em 2025, as operadoras responderam por 43% dos aportes em infraestrutura, enquanto hyperscalers e fornecedores ligados à IA concentraram 54%. Os operadores neutros ficaram com os 3% restantes.

Os investimentos das empresas de tecnologia cresceram 63% no período, enquanto os aportes das operadoras permaneceram praticamente estáveis. Ao mesmo tempo, cinco grupos concentram 65% da receita de telecomunicações na América Latina, em um mercado marcado por fusões, aquisições e saídas de empresas de determinados países.

Com as receitas avançando lentamente, as operadoras priorizam a melhoria da rentabilidade. A margem EBITDA média global do setor situa-se entre 32% e 33%, enquanto alguns grupos latino-americanos apresentam indicadores próximos ou superiores a 40%.

Automação de redes ganha prioridade
A IA é uma das ferramentas utilizadas para buscar eficiência. Até 2025, as iniciativas estavam concentradas em atendimento ao cliente, chatbots, vendas e automatização de processos internos. Agora, a automação de redes passou a apresentar os maiores retornos sobre o investimento.

“Hoje, a automação de redes é onde a IA tem o maior impacto e apresenta os maiores retornos sobre o investimento. Por isso, passou a ser prioridade das operadoras para obter essas eficiências”, disse Sonia.

Na América Latina, contudo, a adoção ainda se concentra em projetos-piloto. “Em geral, são casos de ganhos rápidos, com baixos níveis de risco e de investimento. Ainda não há uma aposta forte em IA”, observou.

As teles também estudam oportunidades no fornecimento de infraestrutura para IA e na comercialização da capacidade excedente. A maior parcela dos investimentos, no entanto, continua nas mãos das hyperscalers.

B2B concentra oportunidades de expansão
O segmento empresarial representa entre 20% e 40% da receita das operadoras, mas concentra 80% das possibilidades futuras de crescimento identificadas pela Omdia. O mercado B2B avança 11%, com 83% das teles ampliando investimentos nessa área e quase 70% registrando aumento de receita.

Crescimento-Latam-B2B-11%

A Vivo foi citada como exemplo dessa estratégia. O B2B responde por 22,6% da receita da operadora. Enquanto a conectividade empresarial cresce 5,4%, os serviços especializados avançam 30%, impulsionados por ofertas de nuvem, IoT, cibersegurança e soluções digitais.

A soberania digital também abre espaço para serviços locais de armazenamento e processamento de dados. Pesquisa apresentada pela Omdia mostra que 31% das empresas latino-americanas estão trocando fornecedores de tecnologia por exigências de soberania, regulação ou conformidade.

 

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