Telebras quer soberania total sobre novo SGDC e integração multi-órbita
A Telebrás publicou na semana passada uma chamada por informações (Request for Proposal – RFI) na sigla em inglês para iniciar as especificações visando uma futura contratação do que será o substituto do Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicalçai (SGDC), conforme notícia antecipada pelo portal Capital Digital. Os estudos para o SGDC 2 começaram há alguns anos mas agora chegaram a algumas definições importantes que ficaram explícitas na RFI e que podem redefinir completamente a forma de relacionamento da estatal com o setor privado. A íntegra da RFI está disponível aqui.
Segundo apurou este noticiário junto a fontes que participam do processo de elaboração da RFI, a demanda da Telebras precisa ser lida primordialmente entendendo que o SGDC 2 será parte de um sistema, que poderá contar com cobertura também de órbita baixa (LEO) e média (MEO). O SGDC 2 em si, que será geoestacionário (GEO), terá como premissa a soberania brasileira total. Isso significa que a Telebrás não aceitará apenas contratar capacidade de terceiros ou colocar o seu payload em um satélite compartilhado sobre o qual não tenha o controle. Além disso, o SGDC é parte de uma solução mais ampla, e precisa ter capacidade de se integrar a outras constelações. No caso do satélite GEO, portanto, o dono do satélite será a Telebras, o controle operacional e banda base serão da Telebras e o satélite ficará em posição orbital brasileira.
Este satélite GEO terá como objetivo atender prioritariamente serviços críticos, como serviços de segurança, comunicação estratégia e militar, e por isso a sua capacidade não é tão superio à do SGDC 1 atual. Este próximo satélite está sendo pensado para dar à Telebrás até 100 Gbps de capacidade adicional, contra 60 Gbps do SGDC 1. Mas isso não quer dizer que a estatal brasileira não esteja aberta a parcerias que poderão elevar a capacidade do satélite. A contratação é de um integrador que entregue todo o pacote de especificação, contratação e entrega do satélite e soluções terrestres para a Telebras, mas este parceiro poderá coloca sua própria capacidade no satélite, desde que concorde que a operação ficará à cargo da estatal brasileira. O que está descartado é que a Telebrás não tenha o controle de todos os elementos operacionais.
Capacidades complementares
A Telebras entende que a capacidade do satélite GEO não precisa ser elevada porque o atendimento a serviços que não são considerados críticos (como cobertura em escolas, postos de saúde e aplicações governamentais mais simples) serão feitas por parte de uma orquestração com soluções LEO e MEO, a serem integradas pelo mesmo parceiro. A Telebras não teria condições de ter uma constelação LEO ou MEO própria, pois isso envolveria custos muito além da capacidade orçamentária atual. Além disso, a empresa a ser contratada para fornecer o GEO não precisa ter tudo, mas precisa ter a capacidade de ingegrar com outras soluções no modelo multi-órbita.
A Telebras espera receber informações e detalhes de como poderia ser essa operação compartilhada com constelações de órbita baixa e média durante a RFI para então desenhar de maneira mais precisa esta contratação. Um dos critérios de escolha será justamente no grau de controle que a Telebras também poderá ter sobre estas operações em órbita LEO e MEO. Idealmente, a estatal gostaria de poder manter pelo menos o centro de operações no COPE (o Centro de Operações Espaciais que opera o SGDC hoje em Brasília, com redundância no Rio de Janeiro), assim como alguma ingerência sobre as gateways que serão utilizadas na operação das redes MEO e LEO.
As informações serão recebidas até o dia 15 de setembro e a estatal tem a esperança de avançar no orçamento do processo de contratação (RFP), ainda em 2026, para poder incluir este item nas contas do governo de 2027. A contratação em si aconteceria a partir do próximo ano.
Sinal verde do governo
A boa notícia para a estatal é que o governo se convenceu da necessidade de ter um SGDC 2 e que isso demandará um investimento no curto prazo, já que o SGDC 1 começa a entrar no ano que vem em seu último terço da vida útil projetada de 15 anos (ainda que, tecnicamente, o satélite tende a permanecer em funcionamento por mais tempo). Mas ainda não existe um orçamento assegurado.
Quando o primeiro SGDC foi lançado, em 2017, a um custo na época de quase R$ 3 bilhões, houve o investimento no satélite (construção, lançamento e seguro), a construção do COPE e a transferência de tecnologia para a Visiona (integradora). Mas, ao final, a Telebras não teve condições financeiras de custear a operação do satélite, e por isso precisou fechar um contrato de operação com a Viasat. Além disso, ficou sem o controle da operação da banda base. Agora, a estatal quer tirar lições da contratação anterior e ter o controle total da operação, além de avançar na intregração multi-órbita com futuros parceiros.
Os candidatos naturais são os parceiros atuais da Telebrás (Viasat, SES, Hughes, Hispasat, Eutelsat/OneWeb), mas existe uma forte movimentação dos canadenses da Telesat/Lightspeed, um interesse estratégico da Europa em uma parceria para o uso da rede IRIS2 (que viria por meio das operadoras europeias, como SES, Hispasat ou Eutelsat) e da SpaceSail chinesa, além da Amazon LEO. Não se descarta também a participação de empresas operadoras de satélites de menor porte, como Astranis e Open Cosmos; da Claro (que hoje fornece serviços de banda X para o governo); e até mesmo da Starlink. O desafio é que nem todas as empresas têm hoje soluções multi-órbita, e nem todas estarão abertas a firmar parcerias com o modelo de controle exigido pela Telebrás.
