Segunda-feira, 15 de Dezembro de 2025

Tarifas dos EUA Capítulo 1.000 e o início de três semanas de negociações tensas

Em uma sequência interminável de cartas, anúncios e proclamações sobre a cota tarifária internacional, o governo dos Estados Unidos lançou novamente tarifas diferenciadas: 30% para importações de produtos do México e da União Europeia (UE); 35% para seu vizinho e principal parceiro comercial, o Canadá; e 50% para o Brasil. Todas essas tarifas serão impostas a partir de 1º de agosto.

Donald Trump, o presidente dos Estados Unidos, retomou sua cruzada pela imposição de tarifas e a disputa pela geopolítica industrial e comercial, às vésperas do término da trégua de 90 dias anunciada em abril: estendeu sua entrada em vigor até agosto e introduziu alguns ajustes. Por exemplo, aumentou a tarifa da UE em 20% em relação ao percentual original e elevou a tarifa para o Canadá, seu principal parceiro comercial, para 35%. Brasil e México também estão entre aqueles cujas respostas oficiais se concentraram em enfatizar a soberania das nações. No caso do Rio, a imposição envolve um imposto de 50%.

50% para o Brasil?
Sim, em uma carta enviada por Trump ao seu homólogo brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, o americano misturou questões pessoais com política e comércio global. Segundo relatos da imprensa internacional, foi a única — das 22 cartas enviadas até o momento — dessa natureza. Por exemplo, ele afirmou que o Brasil viola os direitos de liberdade de expressão dos americanos com suas regulamentações relacionadas a plataformas, que o país se envolve em “práticas comerciais desleais”, entre outras coisas.

A resposta de Lula foi categórica e falou de soberania. “O Brasil é um país soberano, com instituições independentes que não aceitam ser controlados por ninguém”, disse Luiz Inácio Lula da Silva em um comunicado oficial, que também especificou que “as próprias estatísticas do governo americano mostram um superávit de US$ 410 bilhões no comércio de bens e serviços com o Brasil nos últimos 15 anos. Nesse sentido, qualquer aumento unilateral de tarifas será tratado à luz da Lei de Reciprocidade Econômica Brasileira”.

“A soberania, o respeito e a defesa irrestrita dos interesses do povo brasileiro são os valores que norteiam nossa relação com o mundo”, concluiu o anúncio, que rejeitou como “falsos” os argumentos pelos quais os Estados Unidos buscam taxar o comércio.

Mas não é só o presidente. A Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES), que representa cerca de 2.000 empresas responsáveis por aproximadamente 80% do faturamento do setor de software e serviços no Brasil, tem mais de 260.000 empregos diretos e um faturamento anual de aproximadamente R$ 103 bilhões (US$ 18,551 bilhões), lamentou a proposta dos EUA de aumentar as tarifas de importação de produtos brasileiros para 50% e pediu negociações.

“Instamos as autoridades de ambos os países a envidarem todos os esforços para alcançar a reconciliação. É importante fortalecer o diálogo para reduzir os impactos, seja nas taxas de câmbio ou nos fluxos bilaterais de investimentos, que são essenciais para ambas as economias”, afirmou a ABES, assegurando que “continuará monitorando a evolução desta questão para avaliar e potencialmente mitigar os possíveis efeitos sobre a exportação de produtos e serviços tecnológicos para os Estados Unidos”.

A Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) também emitiu nota alertando para o “impacto significativo” que a medida poderia ter nas exportações brasileiras e afetar as relações comerciais entre os dois países. No entanto, afirmou também que a decisão “carece de justificativa econômica, visto que o comércio entre o Brasil e os Estados Unidos é superavitário em favor dos Estados Unidos”.

“No caso do setor eletrônico, os negócios com os Estados Unidos no primeiro semestre deste ano registraram um saldo negativo para o Brasil de US$ 1,3 bilhão, com exportações de US$ 1,1 bilhão e importações de US$ 2,4 bilhões”, especifica, explicando que “os Estados Unidos foram o principal destino das exportações de produtos do setor, apresentando um crescimento de 23,1% nos primeiros seis meses deste ano em comparação ao mesmo período de 2024, aumentando sua participação de 26% para 29% neste período”.

A preocupação é setorial e estratégica. “A medida afetaria principalmente as vendas externas de equipamentos elétricos de grande porte, principal produto de exportação do setor, tendo em vista os consideráveis investimentos nacionais que estão sendo realizados naquele país para a criação de infraestrutura de recarga de veículos elétricos em todo o território nacional. As exportações de motores e geradores, componentes para equipamentos industriais, máquinas de processamento de dados, instrumentos de medição e outros itens também podem ser afetadas”, afirma a carta, que também solicita “a reversão desse patamar tarifário, o que inviabilizará as vendas externas para as empresas do setor”.

Mais tremores secundários
Na segunda-feira, autoridades da Comissão Europeia (CE) se reuniram em Bruxelas para discutir a posição do bloco, mas a chefe da CE, Ursula von der Leyen, já indicou que eles preparariam medidas retaliatórias.

“Sempre fomos muito claros sobre nossa preferência por uma solução negociada. Isso continua sendo verdade , e aproveitaremos ao máximo o tempo que temos”, declarou von der Leyen em uma coletiva de imprensa, acrescentando que essas contramedidas serão suspensas até agosto.

Segundo relatos, a CE preparou duas medidas que foram consideradas “medidas anticoerção”. Essas medidas não foram divulgadas publicamente, estão sujeitas à aprovação dos Estados-membros e, portanto, ainda não foram impostas na mesa de negociações. A Reuters, por exemplo, detalhou que essas medidas poderiam atingir um total de € 93 bilhões em produtos americanos. “O instrumento (anticoerção) foi projetado para situações extraordinárias; ainda não chegamos lá”, afirmou von der Leyen.

No caso do México, foi a presidente Claudia Sheinbaum quem respondeu que estava convencida de que poderia chegar a um acordo com os Estados Unidos e que as autoridades locais estavam negociando um aumento na taxa atual de 30%.

“Acreditamos, com base no que nossos colegas discutiram ontem, que chegaremos a um acordo com o governo dos Estados Unidos e que chegaremos, é claro, em melhores condições”, disse a presidente durante um evento no estado mexicano de Sonora, noticiado pela Reuters. Ela acrescentou: “Eu sempre disse que, nesses casos, o que precisamos é de cabeça fria para enfrentar qualquer problema… Nós representamos o nosso povo, nós representamos a dignidade do povo mexicano. Há algo que nunca é negociado, e isso é a soberania do nosso país.”

No entanto, 1º de agosto é o novo Dia D em termos de tarifas. Para muitos povos da região, como a Argentina, esta data é sagrada: é o dia da Pachamama, a Mãe Terra, e a época em que se costuma jejuar com caña con ruda, uma bebida que mistura uma bebida destilada (gim ou cana branca) com uma folha de arruda macerada, preparada com um mês de antecedência e reservada para a ocasião. A tradição atribui propriedades medicinais e mágicas a esse costume, ajudando a afastar “os males do inverno e da inveja”. Talvez devêssemos confiar nesse conhecimento popular e compartilhá-lo com outras pessoas — sem tarifas, é claro.

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