Streaming deixa de ser complemento e vira estratégia de crescimento para provedores regionais
Em um mercado cada vez mais pressionado por competição, consolidação e mudanças regulatórias, provedores de internet começam a reposicionar sua estratégia: sair da lógica puramente baseada em conectividade para construir ecossistemas de conteúdo, retenção e experiência digital.
Durante a Abrint 2026, João Marcelo Pereira, diretor comercial da Watch Brasil, explicou como o streaming passou a ocupar um papel central na rentabilização dos ISPs regionais – especialmente em um cenário no qual a banda larga deixou de ser diferencial competitivo por si só.
“A gente quer transformar o provedor em uma referência de conteúdo. Hoje, muitas vezes o cliente ainda olha para ele apenas como fornecedor de banda larga. O que queremos mostrar é que ele também pode entregar entretenimento, experiência e valor agregado para toda a família”, afirma o executivo.
A estratégia da empresa combina tecnologia, distribuição de conteúdo, publicidade cooperada e regionalização das ofertas para ampliar engajamento e reduzir churn nas operadoras parceiras.
Streaming entra no centro da estratégia dos provedores
O movimento acontece em um momento particularmente estratégico para o setor. A aproximação da Copa do Mundo deve impulsionar o consumo de conteúdo esportivo e acelerar a disputa por atenção dentro das plataformas digitais.
Segundo João Marcelo, a Watch prepara uma ofensiva comercial focada justamente nesse período, com expectativa de crescimento de 40% ao longo da campanha iniciada meses antes do torneio.
“Esse é um momento em que o usuário busca conteúdo, engajamento e experiência. A gente vem trabalhando essa estratégia há meses porque entende que o esporte movimenta toda a dinâmica de consumo digital. Mas o nosso objetivo não é apenas vender um aplicativo de streaming. É fazer com que o provedor gere valor real para sua base e aumente o relacionamento com o cliente”, diz.
A empresa aposta em uma plataforma integrada que reúne canais lineares, conteúdos sob demanda, filmes, séries e transmissões esportivas dentro de um único ambiente. A ideia é simplificar uma experiência que, hoje, se tornou altamente fragmentada.
A fragmentação do streaming virou problema para o usuário
Na visão do executivo, o excesso de plataformas criou um novo desafio para o consumidor: acompanhar conteúdos distribuídos em diferentes aplicativos, assinaturas e interfaces.
“No esporte isso fica muito claro. Às vezes um mesmo campeonato está dividido em quatro aplicativos diferentes. O usuário precisa procurar onde assistir cada jogo. O que fazemos é centralizar essa experiência dentro de um único app, simplificando o acesso e aumentando o engajamento”, afirma.
A Watch opera com modelo OTT, mas mantendo características próximas à experiência tradicional de TV por assinatura, incluindo múltiplas telas simultâneas e navegação integrada.
Segundo a companhia, a nova versão da plataforma apresentada durante a Abrint 2026 entrega tempo de carregamento até 30% menor e troca de canais mais rápida, buscando melhorar principalmente transmissões ao vivo e eventos esportivos.
Conteúdo passa a ser ferramenta de retenção
Mais do que aquisição de clientes, o streaming se tornou ferramenta estratégica de retenção para os provedores regionais. Em um setor pressionado por guerra de preços e margens menores, agregar conteúdo ajuda operadoras a aumentar percepção de valor e reduzir cancelamentos.
“A nossa preocupação não é simplesmente vender o app para o provedor. A gente quer que o assinante dele utilize a plataforma, se engaje e enxergue valor naquela experiência. É isso que fortalece a relação do cliente com o provedor”, explica João Marcelo.
Esse foco em engajamento levou a empresa a desenvolver um modelo mais próximo de parceria operacional do que apenas fornecimento tecnológico.
Ecossistema de sell-out amplia atuação além da tecnologia
Um dos pilares da estratégia da Watch é o chamado “ecossistema de sell-out”, estrutura criada para apoiar provedores em diferentes etapas da operação comercial.
O modelo é dividido em três frentes principais: apoio operacional no varejo e no lançamento das ofertas, ações digitais e campanhas de growth e treinamento e capacitação das equipes comerciais.
“A gente entende que muitas vezes o conteúdo é difícil de tangibilizar para o cliente final. Por isso investimos fortemente em capacitação. O vendedor da ponta precisa entender como apresentar valor para o assinante e transformar aquele conteúdo em argumento comercial”, afirma o executivo.
A empresa também fornece assets de comunicação, campanhas cooperadas e suporte de marketing para provedores de diferentes portes.
Hoje, a plataforma atende cerca de 2.300 ISPs em todo o país, desde grandes operadoras até pequenos provedores regionais.
Os vários “Brasis” dentro do mesmo Brasil
A regionalização das ofertas aparece como outro eixo central da estratégia da companhia.
Segundo João Marcelo, diferenças culturais, econômicas e comportamentais entre regiões impactam diretamente a forma como os serviços são consumidos – e exigem abordagens distintas de conteúdo e vendas.
“O que funciona no Nordeste não necessariamente funciona no Sudeste. Em algumas regiões, o esporte tem um apelo muito maior. Em outras, filmes e séries performam melhor. A gente adapta o portfólio e as ações comerciais conforme a realidade local”, explica.
Essa adaptação envolve composição dos planos e estratégias específicas de distribuição e canais comerciais. Enquanto determinadas regiões ainda apresentam forte conversão em vendas porta a porta, outras têm desempenho melhor em campanhas digitais.
A própria sensibilidade ao preço também varia de acordo com o perfil regional e o ticket médio da banda larga local.
Publicidade dentro do streaming vira nova frente de receita
Além do crescimento via assinaturas, a empresa prepara uma nova frente baseada em publicidade integrada ao streaming.
A novidade apresentada durante a Abrint é o “Watch Free”, modelo gratuito financiado por anúncios, que permitirá aos provedores oferecer uma experiência de streaming sem custo adicional para parte da base.
“A ideia é que o provedor consiga utilizar o streaming também como ferramenta de comunicação e upsell. Ele poderá oferecer uma experiência gratuita, com publicidade integrada, criando novas possibilidades de relacionamento com seus clientes”, afirma João Marcelo.
A movimentação acompanha uma tendência cada vez mais forte no mercado global de streaming: o avanço dos modelos híbridos sustentados por publicidade.
Reforma tributária e consolidação devem acelerar transformação do setor
Ao analisar o cenário macro do mercado, o executivo afirma que os provedores regionais vivem um momento de transformação estrutural. Além do movimento de consolidação do setor, a reforma tributária prevista para os próximos anos deve alterar dinâmicas relacionadas a benefícios fiscais historicamente utilizados pelo segmento.
Segundo ele, isso reforça ainda mais a necessidade de criação de valor além da conectividade. “A nossa estratégia nunca foi baseada apenas em benefício fiscal. A gente acredita que o conteúdo precisa gerar valor real para o usuário final e fortalecer o posicionamento do provedor junto à sua base”, diz.
Com isso, o streaming deixa de ser apenas um complemento do plano de internet e passa a ocupar um papel estratégico na competitividade dos ISPs regionais.
A disputa já não acontece apenas pela velocidade da conexão, mas pela capacidade de construir experiências digitais completas, integradas e capazes de manter o usuário engajado dentro do ecossistema do provedor.
