Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2026

SP sem luz, água e semáforos, 2 dias após vendaval histórico

Voos cancelados, falta de água e de energia elétrica para milhões de pessoas, árvores obstruindo ruas, semáforos apagados e muitos prejuízos. Este era o balanço, ontem, de dois dias de vendavais na região metropolitana de SP. A Enel, concessionária de energia elétrica, ainda contabilizava 1,3 milhão de imóveis sem luz e sem prazo para a volta do abastecimento. O apagão provocou perda de pelo menos R$ 1,54 bilhão em faturamento para o comércio e serviços, segundo a Fecomercio. Com os apagões em SP, o valor das multas aplicadas contra a Enel cresceu mais de 4.000% em seis anos. Desde 2018, quando a Enel comprou a Eletropaulo, as autuações contra a empresa somam mais de R$ 312 milhões.

Após um vendaval histórico, a cidade de São Paulo ainda enfrentava ontem cancelamento de voos, queda de árvores e falta de luz. A Enel ainda registrava 1,3 milhão de imóveis sem fornecimento e sem prazo para restabelecimento, 48 horas após o início do fenômeno – 15,6% de todos os imóveis que atende. O apagão registrado em São Paulo em decorrência do vendaval de quarta-feira já fez comércio e serviços perderem ao menos R$ 1,54 bilhão em faturamento, segundo estimativa da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP).

Essa velocidade dos ventos – que chegou a 98 km/hora na Lapa, zona oeste – nunca havia sido aferida antes pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), que iniciou as medições em 1963. “Não há relatos de rajadas tão intensas em uma condição de tempo firme”, explicou ao Estadão o meteorologista César Soares, da Climatempo.

O trânsito seguia complicado ontem em grande parte da capital. No início da manhã, a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) informou que mais de 200 semáforos apresentavam problemas na cidade. Doze parques urbanos fecharam – o Ibirapuera só liberou os portões ontem depois das 13 horas. Segundo o Corpo de Bombeiros, só na quarta-feira foram abertos ao menos 1.412 chamados para quedas de árvore na capital e na região metropolitana de São Paulo.

Imagens de árvores gigantes tombadas, como a que caiu sobre um carro na Avenida Prefeito Fábio Prado, na Chácara Klabin, zona sul de São Paulo, chamaram a atenção nas redes sociais. Situação semelhante foi relatada na Rua Cubatão com a Rua Eça de Queiroz, na Vila Mariana. Não houve registro de vítimas. Procurada, como na noite de anteontem, a Enel não deu prazo para que a situação seja normalizada, ressaltando que a rede precisará ser refeita. “O evento climático causou danos severos à infraestrutura elétrica.”

De acordo com a concessionária, o fornecimento foi restabelecido para cerca de 1,2 milhão de clientes, dos 2,2 milhões afetados inicialmente na região metropolitana. Entretanto, outros 300 mil casos ingressaram na quinta, com solicitação de atendimento, em decorrência da continuidade dos ventos. Assim, às 18h, a companhia trabalhava para restabelecer o serviço para cerca de 1,3 milhão de clientes (15,6% da base da distribuidora).

Em meio à situação caótica e às queixas contra a concessionária ( Mais informações nas páginas A14 e A15), houve até denúncia de funcionários cobrando para religar a luz. Um registro foi feito na Rua São Pedro, no centro de Diadema pela Polícia Militar. “A companhia reforça que qualquer exigência de pagamento para reparos na rede elétrica da distribuidora, para restabelecimento de energia, está fora das regras de conduta da companhia”, disse a Enel.

SEM DORMIR E COM MEDO. Rita Augusta de Castro, de 74 anos, moradora de um residencial no centro de Cotia, na Grande São Paulo, estava ontem havia três noites sem dormir porque desde segunda-feira, quando a cidade foi atingida por um temporal, não conseguia ligar o CPAP, um aparelho que controla a apneia do sono. “Não tem energia e ele depende de eletricidade. Sem o aparelho, não consigo dormir, o que tem me deixado exausta.”

Fecomercio observa perdas de R$1,54 bilhão, já se aproximando do registrado em outubro do ano passado

Ela conta que os problemas começaram quando seguia para uma consulta oncológica na capital, por volta das 15h de segunda, quando foi obrigada a retornar porque a Rodovia Raposo Tavares estava alegada. “Cheguei em casa e não tinha energia. À noite voltou, mas na madrugada de terça acabou de novo e meu aparelho desligou. Depois não voltou mais. Desde segunda a Enel vem enrolando, dizendo que vem tal hora e não vem.” Para atender à reportagem, Rita Augusta foi a um Poupatempo próximo de sua casa, pois precisava carregar o celular.

Conforme o balanço da FecomercioSP, divulgado ontem, o setor de serviços deixou de faturar pouco mais de R$ 1 bilhão, enquanto o comércio perdeu R$ 511 milhões. O prejuízo já se aproxima do registrado em outubro do ano passado, quando a falta de energia registrada em diferentes regiões da capital levou a perdas de quase R$ 2 milhões, também segundo a entidade. A FecomercioSP aponta que os impactos negativos da falta de energia elétrica devem ser ainda maiores, “já que não entraram na conta todos os prejuízos causados pelas perdas de estoques, por exemplo, ou os custos fixos que se mantiveram mesmo sem as receitas”.

A federação afirma que, desta vez, o cálculo considera o impacto da falta de energia elétrica em pelo menos 2,2 milhões de imóveis na cidade na quarta, e 1 milhão de unidades na quinta. A estimativa era de que 18% da capital ainda estava sem energia.

ÁGUA. O abastecimento de água também seguia prejudicado na capital e na Grande São Paulo. Segundo a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), sem eletricidade não é possível bombear água para as casas.

A falta de energia afetou o bombeamento de água em vários locais de Guarulhos, Mauá e Itapecerica da Serra, por exemplo. Algumas áreas já tiveram a energia restabelecida, mas o abastecimento é retomado de forma lenta porque o sistema precisa ser reenchido gradualmente. A orientação da Sabesp continuava a ser para que se faça consumo consciente da água armazenada nos reservatórios domiciliares até a recuperação do sistema.

NOS AEROPORTOS. Na manhã de ontem, havia pessoas cho

rando e enfrentando filas em busca de solução pelos saguões do Aeroporto de Congonhas. Alguns funcionários confortavam passageiros e trazia água para acalmá-los. Para piorar, houve efeito cascata dos atrasos do dia anterior.

A Aena, concessionária responsável pelo terminal, reportou 110 voos cancelados até as 15h30 e orientou que os passageiros consultassem a situação de suas viagens com as próprias companhias. As empresas aéreas, por sua vez, disseram prestar suporte e fazer a remarcação de viagens. Em Cumbrica, a GRU informou que 72 voos foram cancelados e 28 foram alternados para outros aeroportos.

“Descobri que o voo estava cancelado por WhatsApp”, afirmou a gerente Tatyane Cristina Nascimento, de 30 anos. “Cheguei às 8h40, fiz o check-in, imprimi o voucher, despachei as bagagens, fiz tudo, mas chegando ao portão de embarque recebi uma mensagem da companhia dizendo que nosso voo tinha sido cancelado. Aí eu fui até o guichê, eles confirmaram e agora estou aqui tentando resolver.”

‘É NATUREZA’. O destino do voo dela era Porto Seguro (BA), o mesmo da empreendedora Livia Fernandes, de 40 anos. Ao lado da amiga Vanessa de Souza, de 41 anos, e dos respectivos maridos, elas saíram de São José do Rio Preto (SP) com antecedência. “É natureza, não tem jeito, mas agora não sabemos se vamos dormir aqui, se vai ter viagem ou não. Dá medo de perder o resort, que já pagamos”, disse Lívia. Para a empresária Natalia Rocha, de 38 anos, que iria para o Rio, as próprias companhias aéreas estavam “perdidas e confusas” com a situação. “Como não é um voo urgente, prefiro cancelar. Não vou ficar aqui o dia inteiro.”

Ainda que o tumulto da terra seja grande, para a turismóloga Ana Carolina, de 42 anos, foi pior a turbulência no céu. “Ontem, que viemos de Belo Horizonte para São Paulo, nosso voo atrasou muito e ficamos quatro horas e meia no ar, buscando lugar pra gente pousar, além da turbulência que causou medo”, afirmou a turismóloga. “Meu único medo é não ir embora, não voltar para casa.”

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