Segunda-feira, 12 de Janeiro de 2026

Soberania: palavra chave no acordo entre SES e Telebras

Uma das prioridades da Telebrás e da SES com a assinatura do Memorando de Entendimento (MOU) para utilização da constelação de órbita média da (MEO) da SES pelo governo (leia matéria completa aqui) é o desenvolvimento de capacidade satelital com alta velocidade, baixa latência e que tenha atributos de segurança e soberania.

As palavras foram enfatizadas em diferentes momentos durante os discursos de celebração do MOU nesta quarta, 5, e depois detalhadas a este noticiário pelo presidente da Telebrás, André Magalhães; e por Ricardo LaGuardia, VP comercial da SES para a América Latina. “Trata-se de uma aliança estratégica que impulsiona o desenvolvimento tecnológico com soberania e inclusão digital”, disse Laguardia em seu discurso.

Para Magalhães, a preocupação da Telebrás é atender às demandas de diferentes órgãos públicos, “mas assegurando os parâmetros técnicos sem abrir mão de uma camada de segurança e soberania sobre as informações”.

O que significa, nesse caso, uma operação com “soberania” tecnológica? Significa, no limite, o controle por um país de toda a cadeia de fornecedores e operação (todas as redes, instalações, operações, controle, acesso a sistemas etc). Mas não sendo possível controlar tudo, pelo menos as partes mais críticas precisariam estar sob a responsabilidade de um ente governamental, ou de empresas que tenham a confiança do governo.

Primeiro passo
O memorando de entendimento entre Telebrás e SES é um primeiro passo nesse sentido entre as duas empresas e pressupõe uma aproximação, troca de informações, desenvolvimento de negócios e possivelmente uma operação cooperada, e não apenas a compra de capacidade. O acordo espelha modelos já firmados com a Hispasat, da Espanha; Telesat, do Canadá; e SpaceSail, da China, todos focados em novas capacidades satelitais, lembrando que hoje a Telebrás já opera o SGDC em parceria com a Viasat, americana.

A SES, que é de Luxemburgo, tem desenvolvido esta linha de atuação na Europa e em outros países justamente focada nessa aproximação com governos que demandam capacidade soberana. “Nosso objetivo é vender para o governo de forma que haja segurança sobre o serviço que está sendo prestado, e no limite é possível fazer uma operação bastante integrada”, esclareceu LaGuardia a este noticiário.

O contexto da preocupação da Telebrás com a questão da diversificação tecnológica e soberania operacional decorre de uma nova dinâmica de mercado de satélites que também impacta a prestação de serviços públicos: não é segredo para ninguém que cada vez mais órgãos governamentais (que são os clientes atuais e potenciais da Telebrás) estão demandando contratações de satélite com baixas latências e altas velocidades. Cumprir estes dois requisitos apenas com a oferta geoestacionária, que é o que a Telebrás poderia oferecer com o Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicação (SGDC), é virtualmente impossível, pela latência mais alta inerente aos satélites GEO (que ficam a 36 mil km de distância da Terra) e limites de velocidade.

A solução é a contratação de capacidade terceirizada. O problema é que só existem duas opções no mercado hoje: Starlink e OneWeb. No caso da Starlink, há sérias preocupações governamentais com a questão da soberania, razões pelas quais a Telebrás não tem parceria com a empresa. No caso da OneWeb (que também está no portfólio da SES e de outras operadoras de satélites no Brasil), a tecnologia tem as mesmas características da Starlink de maneira geral, mas é um produto voltado para o mercado corporativo, o que implica custos maiores.

MEO como alternativa
Nesse contexto, a solução de satélites MEO passou a fazer sentido por ter algumas vantagens: as latências significativamente menores do que as de satélites GEO, capacidade de atender a SLAs corporativos e velocidades elevadas mesmo se comparado a constelações LEO, na casa de 1 Gbps. Além de atender a boa parte das novas demandas governamentais, essa tecnologia abre possibilidades, como a oferta de capacidade em redundância para redes de fibra, serviços de WiFi para municípios, aplicações críticas de saúde e educação entre outras.

Levi Figueiredo, diretor comercial da Telebrás, diz que a estatal ganha agora flexibilidade para desenhar soluções multi órbita. “O MEO tem ainda a vantagem que podemos fazer a gestão local. Vamos ter a partir de agora a prospecção e o desenvolvimento de novos negócios”, diz. Para Marcos Conseglio, diretor de vendas para governo da SES, “o importante é colocar esse MOU em prática, pensando em projetos com soberania, qualidade de serviço e inclusão digital”, diz.

Controle de operações
“Teremos essa parceria nascendo já com uma prova de conceito em uma situação crítica e a viabilização dessa POC mostra a seriedade da parceria. Agora dar o segundo passo é desenhar e estruturar os projetos”, diz André Magalhães, se referindo a prova de conceito que está sendo realizada na COP30, em Belém. A Telebrás utilizará a capacidade MEO da SES para ofertar uma conectividade de 1 Gbps de redundância para os órgãos de segurança, além de demonstrar o sistema no estande da ABDI.

TELETIME questionou o presidente da Telebrás se, no futuro, seria possível fazer a operação de uma eventual capacidade MEO da SES a partir do Centro de Operações de Brasília, no Centro de Operações Espaciais (COPE), onde a estatal tem uma estrutura robusta de parque de antenas, controle do SGDC e um data center tier 4.

Magalhães diz que, idealmente, essa possibilidade interessa, mas que há algumas questões a serem avaliadas e vencidas: a segurança e as restrições de acesso às instalações do COPE, que é operado conjuntamente com a Força Aérea; a confiança mútua entre os países; os termos da parceria entre as empresas entre outros poréns. Laguardia lembra que a relação entre as duas empresas está no início e se desenvolvendo. “A SES atende governos em vários outros países com capacidade soberana e é possível avançar muito na parceria com o Brasil”, diz ele.

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