Rede como plataforma orienta novos negócios das telcos
Transformar a infraestrutura de telecomunicações em uma plataforma para serviços digitais, IA e soluções empresariais é o caminho apontado por operadoras e integradores para ampliar a rentabilidade dos investimentos em rede. Isso combina eficiência no negócio tradicional, expansão no B2B e parcerias com provedores de tecnologia.
O tema foi debatido no painel “Monetização e Reconfiguração do Modelo de Negócio Telco”, realizado nesta quarta-feira, dia 19, durante o Telco Transformation LATAM, no Rio de Janeiro. A sessão foi moderada por Sonia Agnese, analista principal da Omdia para a América Latina.
Participaram Eduardo Takeshi, diretor de Estratégia e Parcerias de TIC da Liberty Latin America; Ivan Mendes, presidente do Brain, centro de inovação da Algar Telecom; Marcos Antonio Manoel Alves, diretor de Telco e Mídia Brasil da Minsait; e Pablo Castillo, subdiretor de Inovação e Tecnologia da operadora mexicana Izzi.
Serviços B2B ampliam atuação das operadoras
A Liberty Latin America colocou a expansão dos serviços digitais B2B entre as prioridades de investimento. A companhia atua em mercados da América Central, do Caribe e da Colômbia, com operações fixas, móveis, empresariais e de cabos submarinos.
Takeshi afirmou que os serviços de cloud, cibersegurança, IA, integração e gestão de ambientes têm perspectiva de crescimento superior à do negócio tradicional de conectividade. A oportunidade, porém, depende da formação de capacidades internas e de alianças comerciais e tecnológicas.
A empresa aposta principalmente na integração de ambientes híbridos, conectando infraestruturas privadas, nuvens públicas e aplicações que exigem baixa latência, soberania ou regras específicas de segurança.
“O ambiente híbrido vai ser o ponto de mudança, para entender que a conectividade é parte crítica e fundamental dessa integração”, afirmou Takeshi.
A Liberty mantém uma parceria de cinco anos com a AWS para integrar a infraestrutura da hyperscaler aos seus data centers. As duas empresas também realizam ações comerciais conjuntas nos países atendidos pela operadora.
No caso da Algar, o B2B já gera mais receita do que o mercado de consumo. A operadora pretende aproveitar o relacionamento com empresas para ampliar a oferta de cibersegurança, cloud, inteligência artificial, infraestrutura e serviços gerenciados.
“Nós temos que deixar de ser apenas telecom e passar a ser um parceiro de prestação de serviço”, afirmou Ivan Mendes.
Para o executivo, a operadora não precisa concorrer diretamente com as grandes plataformas globais. O modelo envolve parcerias com fabricantes, integradores e provedores especializados, mantendo a telco como responsável pela integração, comercialização e gestão das soluções.
Izzi muda critérios para investir em fibra
A Izzi, que tem rede disponível para mais de 20 milhões de domicílios e cerca de 6,5 milhões de assinantes no México, espera concluir em 2027 o processo de reconstrução de sua infraestrutura para FTTH.
Pablo Castillo afirmou que a análise do Capex deixou de considerar apenas a extensão da cobertura ou o aumento da capacidade. Os projetos passaram a ser avaliados pelo valor econômico que podem gerar durante toda a vida útil da rede.
“A conversa sobre Capex se afastou de quanto conseguimos implantar e passou a considerar o valor econômico total que podemos extrair desses investimentos”, disse Castillo, em tradução direta.
A Izzi divide seus projetos em três grupos. O primeiro reúne investimentos necessários à continuidade e à resiliência da rede, incluindo capacidade e cibersegurança. O segundo abrange medidas de eficiência, como redução do consumo de energia e automação. O terceiro contempla iniciativas capazes de habilitar novos produtos e conquistar clientes.
No caso da fibra, a justificativa não está limitada à possibilidade de vender planos com velocidades maiores. A operadora também considera a redução dos custos de operação, a confiabilidade do serviço e a capacidade de suportar novas atividades.
Castillo rejeitou a ideia de que a operadora precise escolher entre permanecer como telco ou se transformar em uma companhia de tecnologia. “Às vezes se apresenta uma escolha entre telco e techco, mas me parece que são enfoques complementares”, afirmou. Para ele, conectividade, identidade, dados contextuais e confiança são ativos que podem sustentar serviços digitais e aplicações fornecidas por terceiros.
Dados ainda pouco convertidos em valor
Marcos Alves, da Minsait, afirmou que menos de 5% dos dados gerados pelas operadoras são transformados em valor. A monetização dependeria da organização e da integração das informações mantidas em inventários, redes e sistemas comerciais.
“Estamos falando de massificar a IA, só que o nosso dado está desestruturado, o meu inventário está desestruturado, minha rede não fala com o inventário, o inventário não fala com o negócio, o OCS não conecta nada com nada”, disse.
Entre as possibilidades estão o tratamento dos dados como produtos, a criação de marketplaces e o uso de informações em tempo real para hiper personalizar planos e ofertas. A mesma estrutura pode apoiar soluções destinadas tanto ao mercado de consumo quanto ao B2B.
A Minsait também defende que tecnologias implantadas para aumentar a eficiência interna sejam posteriormente convertidas em produtos. Uma plataforma de observabilidade utilizada pela operadora, por exemplo, poderia ser oferecida aos clientes empresariais.
IA começa dentro das operadoras
O Brain trabalha com dois caminhos para a IA. O primeiro é o uso interno da tecnologia para melhorar vendas, atendimento, pesquisa de mercado, instalação, ativação e correção de falhas. A Algar tem cerca de 100 agentes de IA em funcionamento nessas atividades.
O segundo caminho é levar essas capacidades aos clientes. Essa frente ainda está em estágio inicial, com provas de conceito e projetos de capacitação. Mendes afirmou que as empresas apresentam níveis distintos de maturidade, organização de dados e confiança na tecnologia, o que dificulta a criação de uma oferta única.
A Izzi também concentra atualmente a IA em aplicações internas. A operadora criou um comitê de governança e contratou capacidade dedicada de CPU e GPU com um provedor de nuvem pública. Os funcionários podem construir agentes e acessar bases internas em um ambiente controlado pelas áreas de governança e cibersegurança.
A companhia avalia transformar essa infraestrutura em uma oferta comercial de GPU como serviço e de processamento de tokens. A proposta é atender empresas que não possuem as mesmas capacidades técnicas de uma operadora para implantar e administrar sistemas de IA.
Para 2029, Castillo projetou que uma parcela relevante do crescimento do setor venha da evolução das redes para plataformas programáveis, capazes de oferecer serviços digitais confiáveis. Alves citou como referência a meta das maiores operadoras globais de alcançar o nível 4 de autonomia de rede até 2030.
