Terça-feira, 9 de Dezembro de 2025

Realidade virtual como ferramenta da arqueologia

Alguma vez você pensou em visitar túmulos da civilização dos etruscos (do século VIII a.C. ao ano 17 a.C.) sem ter que se espremer por aberturas estreitas ou rastejar por passagens escuras? Isso agora é possível. Pesquisadores da Universidade de Gotemburgo, na Suécia, documentaram e recriaram, virtualmente, cerca de 280 tumbas localizadas na Itália. Eles utilizaram uma tecnologia avançada de escaneamento a laser e fotogrametria para montar um modelo tridimensional (3D).

Muitas dessas tumbas estão situadas nos arredores de San Giovenale, na região de Lazio. Todo o material foi disponibilizado em um portal digital (https://etruscan.dh.gu.se/), como parte de um projeto desenvolvido e coordenado pelo Instituto Sueco, em Roma, em parceria com a universidade sueca.

Arqueólogo do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Pedro Von Seehausen trabalha com a digitalização em 3D e 2D de acervos arqueológicos. O brasileiro explicou que as técnicas usadas na pesquisa foram uma combinação de métodos estabelecidos na arqueologia, os quais envolvem a digitalização em 3D por scanners a laser, combinados com fotogrametria e medições em campo.

Segundo Seehausen, o escaneamento a laser tridimensional ajuda a “copiar” objetos ou ambientes no computador, com todos os seus detalhes e medidas. Ele funciona disparando milhares de feixes de laser por segundo. Esses feixes batem nas superfícies e retornam para o aparelho, que calcula a distância de cada ponto. Com isso, é possível montar um modelo em 3D, bastante parecido com a realidade. Por sua vez, a fotogrametria é uma técnica que faz algo parecido, mas usando apenas fotos comuns tiradas de vários ângulos. Depois, um programa de computador junta as imagens e cria um modelo tridimensional do objeto ou do local fotografado.

“A fotogrametria é uma técnica que usa fotos combinadas para montar um produto final, que pode ser uma ortoimagem ou um modelo 3D. Neste último caso, as fotos são jogadas em um software especializado a partir da iluminação do próprio ambiente. O escaneamento a laser projeta a luz para mapear o objeto”, afirmou o arqueólogo.

O portal da Universidade de Gotemburgo reúne pesquisas anteriores do instituto com a nova documentação digital, o que proporciona aos visitantes uma experiência interativa. O projeto também produziu um aplicativo de realidade virtual que oferece uma visualização mais aprofundada das tumbas. “Acima de tudo, as varreduras em 3D permitem que pessoas que nunca puderam viajar até esses locais ou acessar as câmaras funerárias possam vivenciá-los e obter novos dados pela primeira vez”, relatou, por meio de comunicado, o engenheiro Jonathan Westin, um dos autores da pesquisa.

Brasil

De acordo com Seehausen, a documentação digital é essencial tanto para a preservação de informações do patrimônio arqueológico quanto para a sua divulgação. O Museu Nacional utiliza esse mesmo tipo de documentação na produção de espaços virtuais. Como exemplo, o arqueólogo brasileiro cita as salas de uma plataforma do metaverso chamada Spatial, onde é possível visitar os sítios ou coleções digitalizados, com o browser do computador ou com óculos de realidade virtual.

Participante de um grupo de pesquisas no Egito, Seehausen conta que é comum combinar essas tecnologias na documentação arqueológica. “Na missão arqueológica do Museu Nacional, em Luxor, constantemente combinamos escaneamento a laser com fotogrametrias e medições feitas em campo, para criar um modelo”.

O arqueólogo afirma que existem outras técnicas para a produção de diferentes experiências digitais e cita a produção de um curta em realidade virtual, feito com vídeos, fotos em 360 graus, modelos 3D, desenhos epigráficos e medições arqueo-astronômicas sobre a tumba do faraó Neferhotep I. “Com esse material, foi possível realizar experiências imersivas utilizando os óculos Quest 2 da Meta”, contou Seehausen.

Para o brasileiro, a criação do portal é muito importante para a difusão da informação, pois ele funciona tanto a nível mundial quanto local, facilitando o acesso dos pesquisadores a determinado sítio ou peça. “Eu, particularmente, entendo isso como parte da obrigação do arqueólogo, em termos de divulgação do conhecimento científico produzido. É uma forma de retornar à sociedade, aquilo que ela está financiando. No Brasil, é muito comum o uso de plataformas distintas. Uma importante popular é o Sketchfab.”

Ensino

A partir de 2026, o site será incorporado ao ensino da Universidade de Gotemburgo. Os alunos terão a oportunidade de adquirir conhecimento prático em coleta de dados, digitalização 3D e publicação digital, em colaboração com o Instituto. Doutora em História pela Universidade de Brasília (UnB), Vanessa de Jesus Queiroz ressalta que o projeto contribui para o ensino, ao ampliar o acesso à informação, incentivar a interdisciplinaridade, propor novas abordagens sobre a Antiguidade e oferecer recursos didáticos diversos, tornando o aprendizado mais crítico, inclusivo e instigante.

“Projetos como a iniciativa do instituto sueco evidenciam a importância das tecnologias digitais como instrumentos de combate a desinformação e fake news, porque oferecem ao público em geral dados que resultam de uma extensa rede de trabalho de pesquisa validada por instituições comprometidas com a ciência”, afimou. “A circulação de informações é fundamental para democratizar o conhecimento, ao mesmo tempo em que delimita a diferença de funções entre pesquisadores estudiosos e pessoas comuns não dedicadas à pesquisa.”

 

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