Terça-feira, 11 de Agosto de 2026

Pressão sobre margens força provedores a buscar novas receitas e acelera aposta em data centers, mobilidade e games

O mercado brasileiro de provedores de internet começa a atravessar uma mudança estrutural que vai muito além da expansão da fibra óptica. Após anos de crescimento acelerado impulsionado pela demanda reprimida por conectividade, os ISPs passam a enfrentar um cenário marcado por maior concorrência, pressão sobre margens e necessidade de diversificação de receita.

Durante a ABRINT 2026, André Telles, CEO da TIP Brasil, e Alexandre Alves, CEO do Grupo Wave, defenderam que o modelo tradicional baseado exclusivamente na venda de banda larga já não sustenta o crescimento do setor da mesma forma que no passado. Segundo os executivos, o mercado entra em uma nova fase, em que sobrevivência e expansão passam a depender da capacidade dos provedores de construir novos ecossistemas de serviços.

“A vida do provedor está ficando cada vez mais difícil. Onde ele passava fibra e tinha fila para comprar já não existe mais”, afirmaram os executivos.

Segundo eles, o ambiente atual combina aumento de custos, redução de margens e maior competitividade, pressionando os ISPs a ampliarem portfólio e desenvolverem novas fontes de receita para além da conectividade tradicional.

TIP aposta em modelo de “hub de inovação” para ISPs

Diante desse cenário, a TIP Brasil vem reposicionando sua atuação para funcionar como um centro de inovação e desenvolvimento tecnológico voltado exclusivamente ao ecossistema de provedores.

Segundo os executivos, a proposta é assumir parte da complexidade tecnológica que pequenos e médios ISPs dificilmente conseguiriam desenvolver sozinhos, permitindo que esses provedores tenham acesso a novos serviços sem precisar construir toda a estrutura internamente.

“A TIP se posiciona como um grande centro de competência de inovação e tecnologia para provedores de internet”, afirmaram.

A companhia também enfatizou sua neutralidade no mercado, destacando que não atua diretamente no atendimento ao usuário final, o que reduz o receio dos ISPs de desenvolver negócios com potenciais concorrentes.

“Nós somos uma empresa neutra. Nunca vamos atender o usuário final”, afirmaram.

Data center em Campinas marca aposta em IA e infraestrutura

Entre os principais investimentos anunciados pela empresa está a construção de um novo data center Tier 3 em Campinas, com capacidade energética de 10 megawatts e estrutura projetada para comportar entre 2 mil e 3 mil racks.

Segundo Alexandre Alves, o projeto representa uma aposta direta no crescimento da demanda por infraestrutura impulsionada pela inteligência artificial e pela necessidade crescente de processamento distribuído. “Estamos montando um data center relevante em Campinas. A demanda está muito grande por esse tipo de solução”, afirmou.

A estratégia também busca transformar o ambiente em um hub voltado especificamente ao ecossistema de ISPs, modelo que, segundo os executivos, a companhia já desenvolve há mais de 15 anos em outras frentes de conectividade.

Latência mantém concentração de data centers próxima a São Paulo

Apesar da expansão recente de projetos de infraestrutura digital em outras regiões do país, os executivos avaliam que a concentração de data centers no eixo de São Paulo ainda deve permanecer relevante nos próximos anos.

Segundo eles, determinadas aplicações de baixa latência exigem proximidade física entre ambientes computacionais, limitando a descentralização completa dessas operações. “Dois milissegundos podem ser uma eternidade dependendo da aplicação”, afirmaram.

A avaliação é que workloads ligados a aplicações em tempo real, cloud de alta performance e serviços críticos continuam dependendo de ecossistemas altamente concentrados, especialmente próximos aos principais pontos de troca de tráfego e conectividade do país.

Ao mesmo tempo, os executivos reconhecem que workloads menos sensíveis à latência, como armazenamento de imagens e arquivamento de dados, podem avançar para regiões mais distantes ao longo do tempo.

Energia e tributação aparecem como principais gargalos

Na avaliação dos executivos, dois fatores continuam limitando a expansão mais acelerada do mercado brasileiro de data centers: custo energético e tributação sobre equipamentos.

Segundo Alexandre Alves, o preço da energia elétrica no Brasil permanece como um dos principais desafios econômicos para operações de grande escala, embora alternativas baseadas em geração própria e energia limpa estejam ganhando espaço.

“O custo de energia elétrica no Brasil hoje é praticamente proibitivo”, afirmou.

Outro ponto destacado é a carga tributária incidente sobre equipamentos importados para infraestrutura digital. Segundo os executivos, a ausência de incentivos mais amplos acaba elevando significativamente o custo de expansão das operações.

“Hoje é praticamente o dobro do valor do equipamento para trazer ao Brasil”, afirmaram.

Mobilidade e redes sem fio entram no centro da estratégia

Além da infraestrutura de data center, a companhia também amplia investimentos em mobilidade e redes sem fio.

Segundo Alexandre Alves, a empresa criou internamente o projeto Babylon, iniciativa voltada à construção de um ecossistema nacional de conectividade móvel e integração entre operadoras.

A estrutura já conecta diferentes MNOs, operadoras autorizadas, redes regionais, Wi-Fi, LoRaWAN e soluções satelitais.

“Hoje já somos o maior hub de conectividade sem fio da América Latina”, afirmou.

A estratégia busca transformar os ISPs em plataformas mais amplas de conectividade, capazes de operar diferentes tecnologias além da fibra tradicional.

Games viram nova frente de monetização para provedores

Outro movimento apresentado durante a feira foi o lançamento do TIP Games, iniciativa voltada à criação de ecossistemas gamer para provedores regionais.

Segundo os executivos, entre 10% e 15% da base dos ISPs já é composta por jogadores, grupo considerado altamente exigente e relevante dentro da decisão de contratação de internet residencial.

“O gamer normalmente é o decisor da internet dentro da casa”, afirmaram.

A proposta inclui desde suporte técnico especializado até criação de times de eSports ligados aos provedores, permitindo maior engajamento de marca e aumento de ticket médio.

Segundo a empresa, o objetivo é permitir que ISPs utilizem games como ferramenta de fidelização, diferenciação e aquisição de novos clientes.

IoT e monetização de Wi-Fi ampliam ecossistema

Além de games e mobilidade, a companhia também vem ampliando investimentos em IoT e monetização de redes Wi-Fi.

Em parceria com a Netmore, a empresa mantém uma rede nacional baseada em LoRaWAN voltada a aplicações de internet das coisas.

Segundo os executivos, a proposta é oferecer um modelo de “IoT in a Box”, permitindo que provedores acelerem entrada nesse mercado sem necessidade de desenvolver toda a infraestrutura internamente.

Outra frente envolve monetização de audiência sobre redes Wi-Fi públicas, permitindo que ISPs transformem conectividade em receita adicional baseada em publicidade e relacionamento.

ISP deixa de ser apenas provedor de internet

A leitura consolidada apresentada pelos executivos aponta para uma transformação estrutural no mercado de telecomunicações regional.

Na avaliação deles, o ISP tradicional tende a deixar de operar apenas como fornecedor de banda larga e passar a atuar como uma plataforma mais ampla de serviços digitais, conectividade e experiência.

Nesse cenário, tecnologias como IA, mobilidade, IoT, data center e games passam a funcionar não apenas como novas verticais, mas como mecanismos de sustentação econômica para um setor cada vez mais pressionado por competição e redução de margens.

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