Sábado, 13 de Dezembro de 2025

Lixo se transforma em lucro com reciclagem de embalagens e PETs

A Plastiweber, da família do gaúcho Moisés Weber, produz plástico bolha e outros filmes para embalagens. A mineira Denovo, fundada por Cassius Pereira, fabrica tênis. Em comum, a dupla tem o plástico reciclado no DNA do negócio – e um orgulho pouco corriqueiro. “Quando começo a trabalhar, sei que vou reciclar 2 milhões de embalagens plásticas. Não é por mês, não é por ano. É todo santo dia”, diz Weber, diretor da empresa com sede em Feliz, na região metropolitana de Porto Alegre. Com Pereira, é parecido. Cada par de tênis é feito com cerca de cinco garrafas PET usadas, parte delas retiradas do mar.

Os dois empreendimentos são exemplos de médias empresas na economia circular do plástico, um setor que, de acordo com projeções do Fórum Econômico Mundial, pode injetar até US$ 4,5 trilhões na economia global até 2030. No Brasil, o segmento tem o potencial de retorno financeiro de US$ 7 bilhões por ano, considerando apenas a parcela de 21% dos plásticos com reciclagem economicamente viável, segundo estudo da consultoria S2S Partners. Ainda conforme a consultoria, cada brasileiro descarta por ano 64 kg de plástico, dos quais 20 kg têm destinação inadequada. E mais: nas estatísticas da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast), a fatia dos reciclados fica em 20,6%. O restante vai para o lixo.

A percepção do tamanho desse desperdício e do potencial econômico está na origem do negócio de Moisés Weber. A ideia de trabalhar com reciclagem surgiu há 28 anos, quando o negócio de produtos agrícolas de seu pai começou a comercializar filmes plásticos para cobertura de estufas. O empresário conta que, depois de utilizado, o material costumava ser queimado pelos agricultores. “Como a prefeitura não tinha coleta pública, começamos nós mesmos a coletar esse filme para agricultura e a reciclar”, diz Weber.

“Deu muito certo e ampliamos a coleta para pegar, além do plástico dos agricultores, os de supermercados e cooperativas”, relata o empresário. Apesar das vendas, seu pai anteviu o crescimento da concorrência. A saída foi buscar novos segmentos. “Como no setor de laticínios não se usava embalagem reciclada, começamos a fazer filme reciclado para a embalagem do pacote do leite longa vida”, conta Weber.

No começo a estratégia deu certo, com a carteira de clientes reforçada por pesos-pesados como BRF. “Tínhamos 180 funcionários e vendíamos uma loucura. Só que chegou um momento, há uns dez anos, que o plástico virgem ficou muito barato e ficamos sem mercado”, lembra o empresário. A saída foi se reinventar novamente e procurar outros mercados. “A gente começou a atuar mais fortemente no plástico bolha. Hoje, somos o maior fabricante de plástico bolha reciclado do Brasil”, afirma Weber.

Segundo ele, cerca de 85% das produção da empresa é feita com material 100% reciclado. Por razões técnicas, os demais 15% têm uma proporção de 80% de material reciclado e 20% de plástico virgem. A empresa também continua com os filmes plásticos, vendidos a clientes do porte de Unilever, Ambev, Nestlé. “Para atender multinacionais, fomos atrás de uma certificação internacional”, conta ele, referindo-se à EUCertiPlast, o certificado europeu de reciclagem, obtido há seis anos.

A Plastiweber também participa da plataforma Recircula Brasil, lançada no ano passado pela Abiplast e pela Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e operada pela Central de Custódia. Reconhecido pela ONU como modelo de referência para a economia circular, o sistema recebe notas fiscais de entrada e saída de materiais plásticos de recicladores, transformadores e setores da indústria. Com base nessas informações, são emitidos relatórios de rastreabilidade. “É uma forma de mostrar aos clientes de onde vêm nossa matéria-prima”, afirma Weber.

A adesão à plataforma também está nos planos de rastreabilidade da Denovo para 2026, como conta Pereira. Dependendo do modelo de tênis, a empresa, sediada em Belo Horizonte, utiliza matéria-prima de uma de suas duas fontes: garrafas e outras embalagens PET vindas da coleta seletiva no Brasil, ou plásticos PET resgatados de praias, rios e mangues nos Estados Unidos e em outros países. No segundo caso, o tecido é produzido com fio americano importado, já que, de acordo com o empresário, ainda não há tecnologia disponível para isso no país. Na frente doméstica, o fio têxtil obtido a partir do PET reciclado foi desenvolvido em parceria com um fornecedor local. Nos dois casos, os calçados têm solado fabricado com material derivado da cana-de-açúcar, uma tecnologia desenvolvida no Brasil pela Braskem.

Atualmente, os tênis são comercializados apenas pela internet. Até o final do ano, a Denovo deve inaugurar seu primeiro quiosque de autoatendimento em um shopping center numa operação de licenciamento. A meta é chegar a 15 pontos até o final do ano que vem, e a 30 em três anos, com venda média estimada em torno de R$ 1,5 milhão para cada um deles. Nos quiosques, os consumidores vão poder provar, escolher a cor e fazer o pedido em um terminal, sem necessidade de funcionários. O produto continuará chegando pela internet.

Outra novidade prevista para este ano é o início da operação de devolução dos produtos para a fábrica, onde os tênis poderão ser recuperados e doados para instituições ou ser reciclados novamente. Os custos serão em parte cobertos por uma taxa obrigatória de R$ 20 na compra do produto, que pagará a coleta dos tênis usados na casa dos clientes. A estratégia é resposta para uma pergunta que Pereira costumava fazer a si mesmo: “De que adianta a gente contribuir para retirar garrafas PET de aterro sanitários, mangues ou do mar, se tudo depois voltar ao meio ambiente?”

 

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