Sábado, 5 de Setembro de 2026

ISPs recorrem a parcerias para avançar no mercado móvel

A combinação de rede, espectro, marca, canais de venda e relacionamento com o cliente deve orientar a próxima etapa de crescimento dos provedores regionais. Em vez de desenvolver internamente todas as competências, empresas do setor apostam em parcerias para incorporar mobilidade, diversificar o portfólio corporativo e chegar a localidades com cobertura insuficiente.

A avaliação foi compartilhada por executivos da Telecall, Eletronet, Ligga Telecom e iez! Telecom no painel “Novos Modelos de Conectividade para a América Latina”, realizado durante o Conecta Latam, no Rio de Janeiro*. O debate foi moderado por Flavio Lang, publisher do Tele.Síntese.

Para Rivo Soares, diretor de Negócios da iez! Telecom, a expansão das telecomunicações no interior será baseada na combinação dos recursos disponíveis em diferentes empresas. “Hoje a gente não acredita que a transformação das telecoms que estamos vendo, principalmente no interior, vai acontecer por meio da verticalização, mas sim, de fato, por uma atuação conjunta, aproveitando os ativos que cada empresa tem, seja infraestrutura de rede, base de clientes, espectro, ou expertise”, afirmou.

A iez! possui frequências de 3,5 GHz, para o 5G, e de 700 MHz, para o 4G. Em seu modelo, a operadora fica responsável pelo core, pela implantação dos rádios e torres e pela operação da rede móvel. O ISP participa com a própria marca, a rede de fibra, os canais de venda e atendimento e a base de assinantes.

A divisão da receita varia conforme o investimento de cada participante. De acordo com Soares, os acordos podem prever repartições de 70% e 30%, divisão igualitária ou a proporção inversa. A estrutura também inclui acordos de roaming para oferecer cobertura fora da rede própria.

Móvel leva provedor para além da residência
Na Ligga, a mobilidade foi incorporada ao portfólio como instrumento para reter assinantes e conquistar novos consumidores. A operadora está presente nos 399 municípios do Paraná e atende mais de 300 mil clientes residenciais, além de empresas, órgãos públicos, ISPs e grandes operadoras no atacado.

O Ligga Móvel foi lançado inicialmente para a base de banda larga e passou a ser oferecido também aos segmentos empresarial e governamental. Em agosto, a companhia começou a comercializar planos móveis avulsos, sem fidelização e na modalidade pós-paga, permitindo a contratação por consumidores que ainda não utilizam a fibra da operadora.

Segundo Sócrates Gomes, diretor de Negócios B2C e B2B da Ligga, a companhia aproveita a confiança construída pela empresa no mercado regional. “Imagine que eu tenha uma base de mais de 300 mil clientes de banda larga fixa, que já estão conosco há bastante tempo, que confiam e conhecem a qualidade dos serviços, e eu ofereço mobilidade para eles”, exemplificou.

No segmento corporativo, a diversificação também depende de empresas especializadas. “Hoje, quando olhamos para o mercado corporativo, o cliente não quer só o link, ele quer solução”, disse Gomes.

O executivo citou o projeto de Wi-Fi gerenciado implantado para a Prefeitura de São José dos Pinhais. A rede oferece acesso à população em escolas, unidades de pronto atendimento e áreas públicas, com ferramentas de segurança e recursos que permitem ao município divulgar campanhas e serviços aos usuários.

Atendimento diferencia operadoras virtuais
Para Bruno Kelman Ajuz, CMO da Telecall, a proximidade dos provedores regionais com seus clientes representa uma vantagem na oferta de telefonia móvel. A Telecall atua como habilitadora de operadoras virtuais, com estrutura própria integrada à rede da Vivo e roaming com a Claro.

Na avaliação do executivo, preço e cobertura já não bastam para diferenciar as ofertas. Atendimento, facilidade para modificar planos, automação e flexibilidade nos pagamentos passaram a ter peso maior na experiência do consumidor.

“O sonho de todo mundo é ter menos contas para gerir. Então, se você consegue colocar todas as contas em uma só, isso facilita muito”, afirmou Ajuz. A reunião de banda larga, telefonia móvel e outros serviços em uma única cobrança também permite ao ISP desenvolver programas de bonificação e ofertas adicionais.

Ajuz ressaltou ainda que operadoras virtuais e marcas digitais conseguem alterar planos com maior rapidez e adotar recursos como pagamentos recorrentes por Pix e contratação de pacotes extras de dados. Nesse cenário, a qualidade do atendimento se torna uma das principais formas de diferenciação.

Rede neutra sustenta novos serviços
Na camada de infraestrutura, a Eletronet defendeu o uso compartilhado dos ativos como alternativa à duplicação de investimentos. A empresa opera um backbone nacional instalado em estruturas de transmissão de energia e atende ISPs, operadoras, data centers, provedores de conteúdo e plataformas digitais.

“A Eletronet acredita muito no poder do compartilhamento nesse ecossistema. Então, se você tem um ativo, um ativo que tem suas características, seus atributos de valor, seja robustez, confiabilidade, estabilidade da rede, resiliência, quanto mais ele for compartilhado, mais valor vai trazer para o meu cliente”, afirmou Emerson Hioki, CTO da companhia.

A Eletronet também prepara seus pontos de presença para receber serviços de nuvem e aplicações de inteligência artificial na borda. A estrutura reúne energia, colocation e ambientes de alta disponibilidade em 170 pontos, número que, conforme Hioki, deve chegar a 255 ainda neste ano. A expansão inclui localidades próximas às fronteiras com Uruguai, Argentina, Paraguai e Peru.

O objetivo é encurtar o percurso entre o processamento e o consumo dos dados, especialmente com o deslocamento da inferência de inteligência artificial para mais perto dos usuários. “Telecom é uma questão logística, uma questão de otimização”, resumiu Hioki. Para o executivo, as redes terão de identificar os novos perfis de tráfego e adequar suas arquiteturas para reduzir a latência.

*O jornalista viajou a convite do Conecta Latam

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