IA ameaça base comum da realidade e dificulta consensos, diz especialista em inovação
A evolução da inteligência artificial (IA) está tornando cada vez mais difícil distinguir conteúdos sintéticos daqueles ancorados na realidade e pode produzir consequências para a democracia. O alerta foi feito por Martha Gabriel, futurista e especialista em inovação, durante palestra no Fórum RNP 2026, realizado nesta semana em Brasília.
Ao tratar dos sinais de transformação provocados pela inteligência artificial, Martha chamou atenção para a evolução simultânea da geração de imagens, vídeos e textos. Segundo ela, a capacidade humana de identificar a origem de um conteúdo está sendo superada pela qualidade dos materiais produzidos artificialmente.
“Ninguém mais consegue distinguir, no seu próprio cérebro, o que é imagem criada por IA e imagem que é ancorada na realidade. Vídeo também não. A gente não consegue mais. Texto também está cada vez mais difícil”, afirmou.
A questão, na avaliação da especialista, não se restringe à identificação de deepfakes ou à autenticidade de conteúdos publicados na internet. A disseminação de realidades sintéticas pode afetar as referências compartilhadas utilizadas pelas pessoas para interpretar acontecimentos e estabelecer consensos.
“Isso é um problema da democracia, inclusive, porque se cada um começar a viver uma realidade diferente, o que acontece? A gente não consegue consenso”, disse Martha.
IA amplia fragmentação da realidade
Martha argumentou que a construção de consensos depende da existência de algum conjunto de referências reconhecido coletivamente. A expansão de conteúdos sintéticos e de experiências digitais individualizadas pode reduzir essa base comum.
“Quando você não tem a mínima base em comum de realidade, você não consegue acordo em praticamente nada. Isso é complicado”, afirmou.
O fenômeno, conforme a apresentação, ocorre paralelamente à entrada de sistemas de inteligência artificial em diferentes dimensões da vida cotidiana. Martha citou o uso dessas tecnologias como amigos, mentores, terapeutas ou parceiros e a formação de experiências cada vez mais personalizadas.
“A gente começa a ter cada vez mais realidades sintéticas, cada um na sua realidade em paralelo, e a gente não consegue distinguir entre uma e outra”, disse.
A especialista não apresentou a tecnologia apenas pela perspectiva dos riscos. Ao longo da palestra, sustentou que os mesmos movimentos tecnológicos podem gerar oportunidades e ameaças, dependendo da forma como forem utilizados e incorporados pela sociedade.
Problema passa da produção para a validação
A dificuldade de identificar conteúdos autênticos também apareceu na análise de Martha sobre os impactos da IA no ensino e na pesquisa. Para ela, a tecnologia alterou a natureza do problema enfrentado por profissionais e instituições.
Antes da disseminação da IA generativa, produzir conteúdo e fazê-lo em escala eram tarefas difíceis. Com as novas ferramentas, a produção de vídeos, imagens e textos tornou-se mais simples. A dificuldade passa a estar na seleção e avaliação desse volume de material.
“A gente começa a ter muito mais problemas de filtrar, analisar, validar, verificar se é autêntico, etcétera, do que fazer”, afirmou. “Os nossos problemas passaram de execução para discernimento.”
Essa mudança também aumenta, segundo Martha, a importância de conhecimento especializado e fundamentação. A facilidade de geração de conteúdo não elimina a necessidade de repertório para avaliar o que é produzido.
A especialista alertou ainda para o risco de sistemas de IA reproduzirem respostas médias quando utilizados sem repertório suficiente pelo usuário. Nesse cenário, pesquisa, conhecimento acumulado e capacidade de formular perguntas tornam-se componentes relevantes para ultrapassar respostas padronizadas.
Confiança entra na agenda da IA
Outro ponto associado por Martha à transformação tecnológica foi a confiança. Na análise apresentada no Fórum RNP, ela incluiu governança, confiança, geopolítica e soberania entre os elementos que precisam ser considerados na construção dos cenários futuros.
“Confiança é um dos grandes problemas que a gente tem”, afirmou, ao citar tanto a confiança nas instituições quanto nos conteúdos produzidos.
Para Martha, inteligência artificial e seres humanos possuem competências distintas. Enquanto os sistemas tecnológicos apresentam vantagens em automação, volume e velocidade, características como compreensão de contexto, autonomia diante de situações ambíguas e pensamento crítico permanecem centrais para a atuação humana.
Nesse ambiente, a especialista defendeu o pensamento crítico como uma habilidade necessária para lidar com a expansão da IA. A questão deixa de ser apenas produzir informação e passa a envolver a capacidade de avaliar sua procedência, contexto, qualidade e autenticidade — justamente quando conteúdos sintéticos passam a ocupar parcela crescente do ambiente informacional.
