Executivos de data centers admitem erro na articulação pelo Redata
Executivos do mercado de data centers reconheceram que a estratégia adotada pelo setor na defesa do Redata não conseguiu produzir uma mensagem coordenada para o governo. A avaliação foi apresentada nesta quinta-feira, 30, durante painel sobre investimentos em infraestrutura digital na América Latina realizado pelo veículo Tech Capital em São Paulo.
Rodrigo Abreu, operating partner da Pátria Investimentos e CEO da Omnia Data Centers, afirmou que as demandas das empresas não estão sendo comunicadas de maneira articulada. A observação foi feita durante uma discussão sobre segurança jurídica, financiamento e políticas públicas para a instalação de novos data centers.
“Não é que a mensagem não seja ouvida. É simplesmente que, neste momento, a mensagem está desconectada”, declarou.
Marcos Peigo, CEO da Scala Data Centers e consultor sênior da DigitalBridge, também defendeu maior coordenação entre empresas, investidores e demais participantes do mercado. Segundo o executivo, o setor precisa organizar a apresentação dos compromissos assumidos pelas companhias e das medidas esperadas do poder público.
“Eu gostaria de ver o setor mais unido em torno do que realmente importa. Acho que fizemos um trabalho ruim nisso. Houve iniciativas aqui e ali. O modelo tradicional de atuação não funcionou. Precisamos atuar melhor em conjunto nesta próxima etapa”, disse Peigo.
O programa de benefícios fiscais à importação de equipamentos para data centers, proposto pelo Ministério da Fazenda, foi aprovado na Câmara dos deputados, mas não avançou no Senado – onde deixou de ser pautado por resistência do presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP).
Redata integra decisão dos investidores
Abreu incluiu o Redata entre as condições regulatórias consideradas pelos investidores antes da aprovação de novos empreendimentos. Segundo ele, a atração de capital depende de previsibilidade, segurança jurídica, regras claras e condições econômicas adequadas.
“O capital não tem direita ou esquerda. O capital seguirá as condições que o atraem, que são adequadas ao investimento, oferecem segurança, visibilidade de longo prazo, segurança jurídica e Estado de Direito”, afirmou.
O executivo também relacionou as decisões sobre infraestrutura digital ao andamento da regulação da inteligência artificial. Para Abreu, a ausência de definições pode prolongar a condição do Brasil como um mercado potencial, sem assegurar a efetiva contratação dos projetos.
“Se algumas coisas não mudarem em termos de regulação e de clareza das condições, seremos sempre uma promessa. Isso vale para o Redata e para a lei de IA”, disse.
Abreu defendeu que a infraestrutura digital seja incorporada ao planejamento público, ao lado de energia, telecomunicações, transporte, água e saneamento. Ele ressaltou, entretanto, que políticas específicas para o setor não significam autorizar empreendimentos sem regras ou controles.
“Não é uma questão de poder fazer qualquer coisa, a qualquer hora, em qualquer lugar e de qualquer maneira”, declarou.
Setor vê janela de investimentos até 2029
A necessidade de reorganizar a interlocução com o governo também foi associada ao calendário dos projetos internacionais. Peigo afirmou que as negociações em curso envolvem data centers destinados a atender à demanda prevista entre 2027 e 2029.
“Esta é a oportunidade que temos: 2027, 2028 e 2029. Este é o período que estamos disputando agora para capturar a demanda. E isso inclui financiamento”, afirmou.
Na avaliação do executivo, bancos de desenvolvimento e instituições financeiras locais podem contribuir para reduzir a percepção de risco dos investidores internacionais. “Os investidores externos seguirão os investidores locais, porque estes conhecem melhor o cenário”, disse.
Simey Brandão, managing partner e COO da Tower Peak Partners, apontou o nível dos juros como uma dificuldade, mas afirmou que a preparação dos projetos não deve aguardar uma eventual mudança nas condições financeiras. “O momento de investir é agora”, declarou.
Luis Pita, diretor comercial da Atlas Renewable Energy, acrescentou que a disputa pelos investimentos ocorre tanto com mercados de outras regiões como entre países latino-americanos. “Se não reagirmos muito rapidamente, haverá alguém que ocupará esse espaço”, afirmou.
