Quarta-feira, 9 de Setembro de 2026

Dois meses após prever faturar R$ 1 bi, empresa pede recuperação

À Justiça, Thopen Energy, que negocia energia renovável, alegou “quadro agudo” de liquidez e dívidas de R$ 4,5 bilhões.

No mesmo dia que a Casas Bahia pediu recuperação judicial, a empresa de energia renovável Thopen Energy também sucumbiu ao peso das dívidas, de R$ 4,5 bilhões. A companhia já havia surpreendido o mercado no fim do mês passado ao pedir proteção judicial contra credores, em uma espécie de “pré-recuperação judicial”. Em petição à 6.ª Vara Empresarial da Comarca da Capital do Rio de Janeiro, relatou um “quadro agudo de escassez de liquidez” provocado por fatores de mercado e “decisões estratégicas” de antigos controladores.

A medida não era esperada. Menos de dois meses antes de relatar à Justiça estar mergulhada em uma crise de liquidez, um diretor da Thopen havia dito à Forbes que a empresa projetava faturamento de R$ 1 bilhão em 2026, o dobro do registrado no ano anterior. A distância entre a projeção e a situação financeira atual evidencia a velocidade com que a companhia passou a enfrentar dificuldades de caixa.

Procurada, a Thopen afirmou que a medida judicial busca criar um ambiente “estável e estruturado” para a negociação das dívidas. A empresa disse ainda que “segue operando normalmente” e que os compromissos com clientes e empregados permanecem inalterados.

A Thopen comercializa energia renovável e possui usinas solares, de biogás e hidrelétricas em 18 Estados e no Distrito Federal. Até março de 2025, os principais acionistas eram o Grupo RZK, da família Rezek, e a gestora Nova Milano, de Alexandre Grendene, cofundador da Grendene. Ambos venderam o controle para a Pontal, sociedade controlada pela gestora inglesa Denham Capital.

Sob a Denham, a companhia acelerou o crescimento por meio de aquisições, como a de 44 usinas de geração distribuída da Raízen e 45 usinas solares da Matrix Energia. A estratégia ampliou a presença da empresa no mercado de geração renovável, mas também elevou a necessidade de financiamento. A dívida corporativa, vinculada a debêntures e notas comerciais, aumentou pelo menos R$ 813 milhões no ano passado, após a entrada do novo controlador.

Entre os principais credores, estão XP, Kinea e Banco do Nordeste (BNB). A Thopen apontou uma dívida de R$ 184 milhões com um fundo da XP como estopim para o pedido de proteção judicial. A Kinea emprestou R$ 400 milhões à companhia por meio da compra de debêntures, dos quais R$ 93,7 milhões ainda estavam em aberto. O BNB possui cerca de R$ 150 milhões em financiamentos concedidos em 2024.

XP e Kinea não se manifestaram. O BNB afirmou que avalia a situação para adotar as medidas cabíveis. A Pontal e a Denham não responderam.

CRISE DE LIQUIDEZ. Na primeira petição, a Thopen afirmou atravessar um momento crítico, com “expressivo déficit de capital de giro”, atribuído a decisões da antiga gestão. Segundo a companhia, os ex-controladores teriam contraído empréstimos para financiar projetos de energia, mas os vencimentos chegaram antes da geração das receitas. O descompasso entre o prazo dos financiamentos e a entrada dos recursos teria agravado a falta de caixa.

A dívida de R$ 184 milhões com a XP, cujo vencimento estava previsto para julho, foi citada como estopim da crise. O débito, porém, foi contraído já sob a atual gestão. Cerca de R$ 80 milhões dos R$ 93,7 milhões devidos à Kinea também estão vinculados a emissões feitas com aval da atual administração.

A Denham sustenta que, quando comprou o controle, a Thopen já enfrentava grave crise de liquidez, situação que teria sido omitida pelos antigos controladores por meio de “declarações e garantias” falsas ou insuficientes. O atual controlador afirma ainda que R$ 300 milhões de um aporte feito pela gestora na companhia teriam sido usados pelos antigos donos para pagar dívidas anteriores, em vez de financiar novos projetos.

O Grupo RZK negou as acusações. Em resposta ao Estadão, afirmou que, antes da operação, a Thopen passou por análises e auditorias independentes, realizadas por instituições como Banco Safra e KPMG, com participação dos atuais controladores. A holding afirmou que os compradores tiveram acesso às informações necessárias para avaliar os ativos e a situação econômico-financeira da empresa. A Nova Milano não respondeu.

Documentos do processo mostram que empresas ligadas ao Grupo RZK e à Nova Milano são credoras da Pontal, com pelo menos R$ 266 milhões a receber.

EMPRÉSTIMO. Na “pré-RJ”, a Thopen informou que a Pontal

18

Estados e no DF a Thopen Energy possui usinas solares, de biogás e hidrelétricas

R$ 184 milhões

é quanto a companhia deve à XP, que administra um fundo que foi o estopim do pedido de recuperação judicial

R$ 813 milhões

foi o aumento da dívida no ano passado, depois que a companhia comprou 4 usinas de geração distribuída da Raízen e 45 usinas solares da Matrix Energia

aportaria mais de R$ 11,5 milhões para manter as operações. Conforme apurou o Estadão, porém, trata-se de um empréstimo à companhia, com juros de CDI mais 14% ao ano e vencimento em 21 de janeiro de 2027. Em caso de recuperação judicial ou falência, o controlador poderá cobrar antecipadamente a dívida.

O mecanismo coloca o próprio controlador na lista de credores da companhia e evidencia a necessidade de recursos para sustentar as operações durante a reorganização. Questionada sobre as condições do financiamento, a Thopen reiterou apenas que segue focada no processo de reorganização financeira e operando normalmente.

CREDORES. A formação do “grupo Pontal-Thopen” também é alvo de disputa. A Kinea questionou a inclusão da Pontal e de diversas sociedades de propósito específico (SPEs) em um mesmo grupo. Segundo a gestora, as SPEs foram criadas para projetos distintos, com riscos e garantias próprios, e não deveriam ser reunidas em um grupo econômico. A Pontal é controladora, mas não exerce atividades operacionais.

Os ex-controladores também contestaram a iniciativa. Grupo RZK e fundos da Nova Milano afirmam que não autorizaram o pedido recuperacional, como exigiria o acordo de acionistas, e sustentam que 90% da dívida da companhia é “extraconcursal” – ou seja, não poderia ser submetida à recuperação judicial por possuir garantias acionáveis em caso de inadimplência.

Segundo os ex-controladores, uma recuperação judicial poderia acionar cláusulas de vencimento antecipado cruzado (cross-default) previstas em dezenas de operações financeiras do grupo. A disputa, portanto, não envolve apenas a reorganização das dívidas, mas também quais empresas e obrigações poderão efetivamente ser incluídas no processo de recuperação.

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