Quinta-feira, 8 de Outubro de 2026

DE-CIX quer transformar a Península Ibérica em hub digital de conectividade

A expansão da infraestrutura digital e a crescente demanda por capacidade computacional para inteligência artificial estão impulsionando uma nova estratégia da DE-CIX, operadora global de pontos de troca de tráfego de internet (IX). A empresa pretende consolidar a Península Ibérica como um hub digital distribuído, integrando Lisboa, Madri e Barcelona em um ecossistema de conectividade de baixa latência, com capacidade para aproximar mercados europeus e latino-americanos.

A iniciativa, que o CEO da DE-CIX, Ivo Ivanov, anunciada no evento Atlantic Convergence, nessa quinta-feira, 1, em Lisboa, denomina Distributed Digital Capital, representa uma evolução do modelo tradicional de concentração de infraestrutura em grandes centros urbanos. Em vez de depender de um único polo, a proposta é integrar diferentes cidades, aproveitando suas características geográficas e econômicas para oferecer uma infraestrutura digital complementar.

Na entrevista, Ivanov também detalhou a estratégia da companhia para ampliar o acesso à computação de alto desempenho por meio de uma solução de GPUs como serviço (GPU as a Service). A proposta é integrar recursos computacionais de diferentes data centers, permitindo que empresas utilizem capacidade de processamento distribuída para treinar modelos de inteligência artificial, sem depender exclusivamente de grandes instalações.

No Brasil, a companhia pretende ampliar sua presença em diferentes regiões, acompanhando a demanda por conectividade e infraestrutura digital. Ivanov também manifestou apoio ao programa Redata, iniciativa do governo brasileiro para estimular investimentos em data centers, e afirmou que a DE-CIX está aberta a participar de consórcios e parcerias para desenvolver projetos no país.

Lisboa, Madri e Barcelona como um único ecossistema digital

A estratégia de transformar a Península Ibérica em um hub digital distribuído está fundamentada na integração de três mercados com características distintas. Segundo Ivanov, a experiência acumulada pela DE-CIX na região nos últimos dez anos demonstrou que a conexão entre diferentes cidades, desde que sustentada por uma infraestrutura de baixa latência, pode oferecer vantagens em relação à concentração de serviços em uma única metrópole.

“Descobrimos que, quando existe um ecossistema bem integrado, com latência de poucos milissegundos, ele pode ser mais atraente do que um único mercado metropolitano para um grande número de operadores”, afirma o executivo.

Nesse modelo, Lisboa desempenha o papel de porta de entrada para conexões transatlânticas e para a África Ocidental. Embora ainda tenha um ecossistema menor do que o de Madri, a capital portuguesa apresenta uma posição estratégica para o tráfego internacional, especialmente nas rotas entre Europa, América Latina e África.

Madri, por sua vez, concentra a maior parte da infraestrutura de negócios do ecossistema, com uma presença expressiva de data centers e redes internacionais. Já Barcelona complementa a estrutura com sua localização no Mediterrâneo, oferecendo conexões para mercados europeus e rotas de cabos submarinos que ampliam a redundância da infraestrutura regional.

A cidade também abriga centros de inovação de grandes grupos internacionais, como a Volkswagen, que desenvolveu ali a marca Cupra. Para Ivanov, essa combinação de conectividade, infraestrutura e atividade empresarial cria um ambiente favorável à expansão de serviços digitais.

A integração das três cidades permite que empresas e provedores de serviços tenham acesso a diferentes rotas internacionais e a um conjunto mais amplo de recursos de conectividade, incluindo redes de inteligência artificial, serviços de nuvem e infraestrutura de neocloud.

A proximidade geográfica é um fator determinante para a viabilidade da proposta. A latência entre os centros deve permanecer abaixo de dez milissegundos, permitindo que os recursos sejam utilizados como parte de um mesmo ecossistema.

Conectividade direta entre Brasil e Europa

A iniciativa também tem implicações para o tráfego internacional entre Brasil e Europa. Historicamente, parte significativa dos dados entre os dois mercados percorre rotas indiretas, passando por centros de conectividade nos Estados Unidos e, em alguns casos, por Londres.

Para Ivanov, a ampliação das conexões diretas entre os dois lados do Atlântico representa uma oportunidade de melhorar a eficiência da infraestrutura digital e aproximar os mercados.

“Não faz sentido que o tráfego entre Brasil e Europa precise passar pelos Estados Unidos e depois por Londres. Do ponto de vista tecnológico e econômico, queremos estabelecer conexões diretas entre os dois lados do Atlântico”, afirma.

A consolidação do hub ibérico pode contribuir para ampliar a comunicação entre empresas brasileiras e europeias, criando condições para novos negócios e para a expansão internacional de provedores de serviços digitais.

Na avaliação do executivo, a infraestrutura também pode estimular empresas portuguesas e espanholas a estabelecerem presença física no Brasil, caso identifiquem oportunidades comerciais. O movimento inverso também é possível, com companhias brasileiras ampliando suas operações na Europa.

A proposta, portanto, vai além da interconexão de redes. A intenção é criar uma infraestrutura que facilite a integração econômica entre os mercados, aproveitando relações comerciais e culturais históricas entre Brasil, Portugal e Espanha.

GPUs como serviço para ampliar o acesso à inteligência artificial

Outra frente estratégica da DE-CIX é o desenvolvimento de uma infraestrutura de GPUs como serviço, destinada a ampliar o acesso à capacidade computacional necessária para aplicações de inteligência artificial.

A proposta parte de um desafio enfrentado por empresas que precisam treinar modelos de IA, mas não encontram capacidade suficiente em um único data center. Uma organização que necessite de 2.500 GPUs, por exemplo, pode ter dificuldades para encontrar uma instalação que disponibilize todos esses recursos simultaneamente.

Em vez de depender de um único grande complexo, a solução da DE-CIX prevê a integração de GPUs distribuídas em diferentes data centers, formando um ambiente computacional virtualizado.

Ivanov explica que a tecnologia permite reunir recursos de várias instalações por meio de redes de fibra óptica e protocolos de comunicação de alto desempenho, utilizando uma arquitetura baseada em Ultra Ethernet.

“Uma empresa que precisa de 2.500 GPUs não necessariamente precisa encontrá-las em um único data center. Podemos conectar cinco instalações com 500 GPUs cada uma e transformá-las em uma única comunidade virtual de GPUs como serviço”, explica.

Para que essa arquitetura funcione em operações de treinamento de IA, a latência entre os recursos computacionais precisa ser extremamente baixa. Segundo o executivo, a meta é manter a comunicação entre os diferentes conjuntos de GPUs em até três milissegundos.

O modelo pode beneficiar tanto as empresas que necessitam de grande capacidade computacional quanto os operadores de data centers de menor porte, que passam a ter condições de oferecer seus recursos de forma integrada a um mercado mais amplo.

Em vez de competir exclusivamente com grandes complexos de infraestrutura, essas instalações podem participar de um ambiente distribuído, oferecendo capacidade computacional sob demanda.

A solução também pode contribuir para diversificar a implantação de data centers, permitindo a utilização de instalações de menor escala em regiões onde a construção de grandes complexos enfrenta restrições relacionadas à disponibilidade de energia, ao espaço ou à proximidade de áreas residenciais.

Soberania de dados como diferencial

Além da flexibilidade e da eficiência operacional, Ivanov destaca a soberania de dados como um dos principais benefícios da arquitetura distribuída de GPUs.

O treinamento de modelos de inteligência artificial frequentemente exige o processamento de informações estratégicas e sensíveis, como dados corporativos, registros de clientes, informações de saúde e dados de segurança pública.

Para o executivo, a possibilidade de utilizar recursos computacionais localizados no próprio país é fundamental para organizações que precisam manter o controle sobre suas informações.

“Se uma empresa brasileira precisa treinar um modelo com dados sensíveis, não faz sentido obrigá-la a enviar essas informações para os Estados Unidos ou para a Europa. É importante que os dados permaneçam no Brasil”, afirma.

Nesse contexto, a infraestrutura distribuída pode permitir que empresas utilizem recursos de diferentes data centers nacionais, sem necessariamente transferir seus dados para instalações no exterior.

A combinação de conectividade de baixa latência, capacidade computacional compartilhada e localização dos dados pode abrir novas possibilidades para empresas que desejam desenvolver aplicações de IA, mas enfrentam limitações de infraestrutura ou exigências regulatórias.

Brasil está no centro da estratégia de expansão

A DE-CIX considera o Brasil um mercado estratégico para sua expansão na América Latina. A empresa pretende ampliar sua infraestrutura de acordo com a demanda dos clientes, com o objetivo de atender não apenas aos principais centros econômicos, mas também a outros mercados regionais.

Além de São Paulo e Rio de Janeiro, Ivanov mencionou Fortaleza e Porto Alegre como cidades relevantes para a expansão da infraestrutura de conectividade da companhia.

“Estamos apenas no início do nosso crescimento no Brasil. Queremos ampliar nossa presença no país, de acordo com a demanda dos clientes. Vemos muitas oportunidades e gostamos muito do mercado brasileiro”, afirma.

A estratégia contempla a construção de uma infraestrutura capaz de atender às necessidades de empresas, operadoras e provedores de serviços digitais, oferecendo conectividade para nuvem, inteligência artificial e redes internacionais.

A companhia também pretende aproveitar parcerias com empresas brasileiras e integradores de sistemas que já possuem relacionamento comercial com milhares de organizações. Esses parceiros poderão incorporar os serviços da DE-CIX a seus próprios portfólios, ampliando o alcance da oferta no mercado nacional.

Redata pode estimular novos investimentos em infraestrutura

Ivanov também demonstrou apoio ao programa Redata, iniciativa do governo brasileiro para estimular investimentos em infraestrutura de data centers. Para o executivo, a proposta representa um reconhecimento da importância estratégica da infraestrutura digital para o desenvolvimento econômico.

“Adoro o que foi feito com o Redata. Demorou bastante para acontecer, mas é uma demonstração importante de confiança na infraestrutura digital”, afirma.

O executivo ressalta, entretanto, que a efetividade do programa dependerá da execução das medidas previstas e da capacidade de transformar os incentivos em projetos concretos.

Na avaliação de Ivanov, a expansão da infraestrutura brasileira precisa considerar as características regionais e a demanda por conectividade, permitindo que diferentes localidades participem do desenvolvimento do mercado digital.

A DE-CIX pretende acompanhar esse movimento, ampliando sua presença em mercados estratégicos e estabelecendo parcerias com empresas locais.

Questionado sobre a possibilidade de participar de consórcios brasileiros para a construção de data centers e o desenvolvimento de infraestrutura digital, Ivanov confirmou o interesse da companhia. “Absolutamente. Estamos interessados em participar de iniciativas desse tipo. Nossa estratégia é trabalhar em conjunto com parceiros locais”, afirma.

O executivo destaca que a DE-CIX considera seus serviços complementares aos oferecidos pelo IX.br, projeto de interconexão mantido pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil, que possui mais de duas décadas de atuação no mercado nacional.

Segundo Ivanov, a expansão da infraestrutura exige redundância e diversidade de serviços. A DE-CIX oferece, além da interconexão, um conjunto de soluções de conectividade corporativa, incluindo acesso a provedores de nuvem, serviços de IA e integração com seu ecossistema internacional.

A empresa também mantém conexões com mercados estratégicos da América do Norte e da Europa, ampliando as possibilidades de interconexão para organizações brasileiras.

“Os tempos em que as empresas precisavam fazer tudo sozinhas ficaram para trás. É melhor estabelecer parcerias. Caso contrário, você corre o risco de desaparecer”, conclui Ivanov.

*o jornalista viajou a Lisboa a convite da organizaçao da Atlantic Convergence.

Compartilhe: