Segunda-feira, 15 de Dezembro de 2025

Conectividade e nuvem no campo ainda enfrentam gargalos de infraestrutura e formação, dizem especialistas no AGROtic

O agronegócio brasileiro continua distante da chamada agricultura 5.0. Falta de incentivos em infraestrutura e formação técnica foram itens unânimes entre os especialistas que participaram do painel sobre armazenagem de dados em nuvem, realizado nesta terça-feira, 29, no evento AGROtic 2025. O debate reuniu representantes da PUC-Rio, Fatec Pompeia e da empresa NelCloud, com mediação da Esalq/USP, e abordou os obstáculos técnicos e culturais que impedem uma digitalização plena das atividades no campo.

Professor da PUC-Rio e coordenador do laboratório Exacta, Hélio Lopes destacou que o uso da nuvem pode contribuir significativamente para a integração e a segurança de dados agrícolas, mas alertou para desafios estruturais.

De acordo com o professor, uma das principais melhorias é a variedade dos dados que são gerados. “O agro é o mundo. Eu acho que posso começar pela variedade dos dados que são gerados. Para tomar a decisão, você precisa ter eles ali”. E, conforme o professor, isto é um desafio.

Ele também apontou a latência e a conectividade como gargalos operacionais, ainda que parcialmente mitigados por soluções de edge computing.

Bruno Ciscotto, da NelCloud, parceira da Huawei Cloud no Brasil, corroborou a visão. Para ele, a adoção de data centers regionais é fundamental para reduzir latências e ampliar o uso de dados em tempo real. O especialista explicou que quanto mais próximo o data center estiver do cliente final, menor será a latência.

Formação técnica é gargalo
Além da infraestrutura, os debatedores do AGROtic 2025 enfatizaram a importância da formação técnica e a escassez de profissionais qualificados em tecnologia no ambiente rural. Coordenador do curso de Big Data no Agronegócio da Fatec Pompeia, Luiz Garcia ressaltou que muitas vezes funções de TI acabam sendo exercidas por profissionais de outras áreas.

Ele também apontou o desprezo por sensores instalados em maquinários modernos como reflexo da resistência cultural. “Tem muito produtor que compra um equipamento de R$ 2 milhões, a primeira coisa que ele faz é desativar tudo para poder usar de forma analógica”, disse.

O professor citou ainda três projetos em andamento na Fatec que buscam aplicar inteligência artificial e big data ao agro: o Nema Vision, de identificação de nematoides por visão computacional; o SB100, voltado à transformação de boletins técnicos sobre solos em LLMs; e o Land scoping, que estima produtividade da cana por meio de imagens de satélite.

Adoção tecnológica está em estágio 3.0
Apesar dos avanços em setores específicos, a conclusão geral dos painelistas é que o agro brasileiro, como um todo, ainda não alcançou o estágio de agricultura 4.0 — e está distante do 5.0. Conforme os especialistas, apesar de a agricultura brasileira ter precisão, com sensores e automação, mas ainda falta integração de dados e inteligência de verdade. Hélio Lopes acrescentou que políticas públicas serão fundamentais para acelerar essa transição.

Ao final, todos os participantes defenderam maior articulação entre academia, setor privado e governo. “Sem isso, vai ser difícil levar a nuvem e a inteligência artificial para o campo de forma ampla, estruturada e soberana”, concluiu o professor da PUC-Rio.

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