Segunda-feira, 17 de Agosto de 2026

Concentração em hyperscalers limita crédito a data centers

Os limites globais de exposição dos bancos aos mesmos clientes estão se tornando um dos principais fatores na análise de crédito para novos data centers na América Latina. Embora os grandes projetos sejam contratados por empresas com capacidade de pagamento, a concentração da demanda em poucos hyperscalers pode restringir os recursos disponíveis para financiar os empreendimentos.

A avaliação foi apresentada nesta quinta-feira, 30, durante painel sobre o financiamento da infraestrutura de data centers na região. O debate reuniu Marcelo Sahatdjian, diretor-executivo de Corporate & Investment Banking do Santander; Rafael Bomeny, cofundador e CFO da ODATA, empresa da Aligned Data Centers; e Ricardo Scherer Perlin, gerente da divisão de Tecnologia, Mídia e Telecomunicações do BNDES. A moderação foi conduzida por Costanza Garcia, counsel da Davis Polk.

Segundo Sahatdjian, os bancos precisam considerar não apenas as condições de cada projeto, mas também o volume já emprestado ao cliente e ao setor em diferentes mercados.

“Mesmo quando os grandes projetos são respaldados por contrapartes com boa qualidade de crédito, todos os bancos têm limites de exposição a cada cliente e ao setor como um todo”, afirmou.

Limite de crédito é calculado globalmente
Sahatdjian explicou que a concentração se torna mais relevante à medida que as mesmas empresas contratam projetos de grande porte em diversos países. No caso dos empréstimos denominados em dólar, parte do financiamento tende a ser concedida por bancos internacionais, que analisam a exposição consolidada ao cliente.

“É necessário entender se o limite de exposição foi alcançado ou não, porque isso faz parte da análise dos bancos sobre a existência de liquidez suficiente para determinada operação”, disse.

O executivo ressaltou que o cálculo não se restringe aos financiamentos concedidos na América Latina. “Esses bancos fazem negócios globalmente. Portanto, é importante para eles saber qual é a exposição global”, acrescentou.

Apesar dessa limitação, Sahatdjian afirmou que o interesse dos bancos em diversificar geograficamente suas carteiras pode favorecer projetos latino-americanos. A disponibilidade de crédito, no entanto, dependerá da estrutura da operação, dos contratos e da distribuição dos riscos.

Projetos exigem retorno ao project finance
O aumento da escala dos empreendimentos também reduziu a capacidade de financiar a expansão apenas com linhas corporativas. Segundo Bomeny, a ODATA utilizou project finance em seus primeiros projetos e posteriormente passou a contar com uma linha corporativa de desenvolvimento, que facilitou a execução das obras.

O tamanho atual dos investimentos, porém, está levando a companhia de volta ao financiamento estruturado por projeto.

“Para o tamanho dos projetos, estamos voltando ao project finance. É realmente a única maneira”, afirmou Bomeny.

Sahatdjian apresentou avaliação semelhante. Segundo ele, alguns projetos podem duplicar ou triplicar a capacidade atual dos operadores, o que torna difícil financiar toda a expansão por meio do balanço das empresas.

“É praticamente impossível fazer o financiamento por meio de uma operação corporativa. Tem de ser por project finance”, declarou.

O executivo do Santander mencionou a possibilidade de combinar uma linha-ponte, destinada à fase de desenvolvimento e construção, com uma operação posterior de project finance. O modelo permitiria que o empreendimento avançasse enquanto a estrutura definitiva de financiamento é concluída.

Reciclagem do capital ainda é gargalo
Bomeny afirmou que uma das lacunas do mercado latino-americano está na etapa posterior à conclusão do projeto. Depois de utilizar a linha corporativa para construir o data center, o operador precisa substituir esse crédito por recursos de longo prazo e liberar capacidade financeira para novos empreendimentos.

“A peça que falta é quando o projeto está pronto e maduro e precisamos fazer a reciclagem”, disse.

Segundo o CFO da ODATA, os bancos que concedem as linhas de desenvolvimento precisam demonstrar aos seus comitês de crédito que os recursos poderão ser recuperados ou substituídos dentro de três ou quatro anos.

Sahatdjian afirmou que a previsibilidade sobre essa operação posterior, conhecida como takeout, é especialmente importante para os bancos comerciais, que possuem passivos de prazo mais curto. Contratos de longo prazo e fluxos de receita já contratados contribuem para reduzir o risco de refinanciamento.

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