Terça-feira, 9 de Dezembro de 2025

Computação verde: Memória eletrônica é fabricada a partir de folhas de café

Folhas de café viram nanopartículas e componentes eletrônicos para computação verde

Nanopartículas de zinco produzidas a partir de folhas do cafeeiro.
[Imagem: Vanessa de Oliveira Arnoldi Pellegrini et al. – 10.1038/s41598-025-01260-3]

Síntese verde

Não apenas os frutos, mas também as folhas do cafeeiro, a planta do café, poderão ter um destino nobre: A fabricação de nanopartículas e, a partir delas, de componentes eletrônicos para computadores.

As folhas do cafeeiro hoje são descartadas, mas Vanessa Pellegrini e colegas descobriram como utilizá-las para produzir nanopartículas de óxido de zinco, estruturas microscópicas que têm propriedades que as tornam úteis em áreas tão diversas quanto saúde, meio ambiente e tecnologia.

Nanopartículas apresentam características diferentes daquelas que os mesmos materiais exibem em escala maior. O óxido de zinco, quando reduzido ao tamanho nanométrico, ganha habilidades especiais: Combate bactérias, acelera reações químicas e até pode ser usado em dispositivos eletrônicos mais sustentáveis.

Tradicionalmente, a produção de nanopartículas envolve o uso de produtos químicos tóxicos e processos caros. Vanessa descobriu como usar as próprias moléculas do metal, presentes naturalmente nas folhas de café, para fabricar as partículas. A técnica é chamada de “síntese verde”, por ser mais econômica, limpa e alinhada aos objetivos globais de sustentabilidade.

As folhas de café foram escolhidas porque, além de abundantes, contêm compostos antioxidantes e bioativos, que facilitam a formação das nanopartículas. O Brasil, maior produtor mundial de café, pode se beneficiar diretamente dessa descoberta, aproveitando resíduos que hoje não têm valor comercial.

Folhas de café viram nanopartículas e componentes eletrônicos para computação verde

Se aplicada em escala industrial, a descoberta tem potencial para gerar novas fontes de renda para agricultores e viabilizar uma computação verde.
[Imagem: Catalina Tong/iNaturalist]

Computação verde

As nanopartículas de café apresentaram uma elevada eficiência contra bactérias Staphylococcus aureus e Escherichia coli, que estão entre os principais agentes de infecções hospitalares. Isso abre a possibilidade de desenvolver novos antimicrobianos em um momento em que o mundo enfrenta o avanço da resistência bacteriana, um dos maiores desafios da saúde pública.

Outro ponto promissor foi a capacidade das nanopartículas de quebrar moléculas de poluentes quando expostas à luz ultravioleta. Em um experimento, elas degradaram corantes usados pela indústria têxtil, que costumam contaminar rios e mananciais. Isso mostra que a tecnologia pode ser usada em estações de tratamento de água ou em processos de descontaminação ambiental.

Além da saúde e do meio ambiente, os pesquisadores avançaram também na área da eletrônica e da computação. Ao combinar as nanopartículas com quitosana (um polímero obtido de cascas de crustáceos), eles criaram um componente eletrônico chamado bioReRAM – uma memória de computador que armazena dados usando materiais biodegradáveis.

Essa inovação abre caminho para a chamada “computação verde”, em que a fabricação de componentes eletrônicos gera menos impacto ambiental.

“Estamos diante de uma inovação que aproveita um resíduo agrícola e o transforma em soluções para áreas vitais como saúde, meio ambiente e tecnologia. Se aplicada em escala industrial, a descoberta pode gerar novas fontes de renda para agricultores, reduzir o desperdício e colocar o Brasil em posição de destaque na produção de materiais avançados a partir de recursos naturais,” disse o professor Igor Polikarpov, do Instituto de Física da USP de São Carlos.

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