Computação verde: Memória eletrônica é fabricada a partir de folhas de café

[Imagem: Vanessa de Oliveira Arnoldi Pellegrini et al. – 10.1038/s41598-025-01260-3]
Síntese verde
Não apenas os frutos, mas também as folhas do cafeeiro, a planta do café, poderão ter um destino nobre: A fabricação de nanopartículas e, a partir delas, de componentes eletrônicos para computadores.
As folhas do cafeeiro hoje são descartadas, mas Vanessa Pellegrini e colegas descobriram como utilizá-las para produzir nanopartículas de óxido de zinco, estruturas microscópicas que têm propriedades que as tornam úteis em áreas tão diversas quanto saúde, meio ambiente e tecnologia.
Nanopartículas apresentam características diferentes daquelas que os mesmos materiais exibem em escala maior. O óxido de zinco, quando reduzido ao tamanho nanométrico, ganha habilidades especiais: Combate bactérias, acelera reações químicas e até pode ser usado em dispositivos eletrônicos mais sustentáveis.
Tradicionalmente, a produção de nanopartículas envolve o uso de produtos químicos tóxicos e processos caros. Vanessa descobriu como usar as próprias moléculas do metal, presentes naturalmente nas folhas de café, para fabricar as partículas. A técnica é chamada de “síntese verde”, por ser mais econômica, limpa e alinhada aos objetivos globais de sustentabilidade.
As folhas de café foram escolhidas porque, além de abundantes, contêm compostos antioxidantes e bioativos, que facilitam a formação das nanopartículas. O Brasil, maior produtor mundial de café, pode se beneficiar diretamente dessa descoberta, aproveitando resíduos que hoje não têm valor comercial.

[Imagem: Catalina Tong/iNaturalist]
Computação verde
As nanopartículas de café apresentaram uma elevada eficiência contra bactérias Staphylococcus aureus e Escherichia coli, que estão entre os principais agentes de infecções hospitalares. Isso abre a possibilidade de desenvolver novos antimicrobianos em um momento em que o mundo enfrenta o avanço da resistência bacteriana, um dos maiores desafios da saúde pública.
Outro ponto promissor foi a capacidade das nanopartículas de quebrar moléculas de poluentes quando expostas à luz ultravioleta. Em um experimento, elas degradaram corantes usados pela indústria têxtil, que costumam contaminar rios e mananciais. Isso mostra que a tecnologia pode ser usada em estações de tratamento de água ou em processos de descontaminação ambiental.
Além da saúde e do meio ambiente, os pesquisadores avançaram também na área da eletrônica e da computação. Ao combinar as nanopartículas com quitosana (um polímero obtido de cascas de crustáceos), eles criaram um componente eletrônico chamado bioReRAM – uma memória de computador que armazena dados usando materiais biodegradáveis.
Essa inovação abre caminho para a chamada “computação verde”, em que a fabricação de componentes eletrônicos gera menos impacto ambiental.
“Estamos diante de uma inovação que aproveita um resíduo agrícola e o transforma em soluções para áreas vitais como saúde, meio ambiente e tecnologia. Se aplicada em escala industrial, a descoberta pode gerar novas fontes de renda para agricultores, reduzir o desperdício e colocar o Brasil em posição de destaque na produção de materiais avançados a partir de recursos naturais,” disse o professor Igor Polikarpov, do Instituto de Física da USP de São Carlos.
