Sexta-feira, 9 de Outubro de 2026

Claro prevê migrar clientes HFC para fibra da Desktop em 2 anos

A Claro apresentou ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) um plano de integração das redes da Desktop que prevê a migração de clientes atendidos por HFC — tecnologia que combina fibra óptica e cabos coaxiais — para a infraestrutura de fibra até a residência (FTTH) da adquirida. O cronograma abrange 24 meses após a conclusão da operação e contempla o desligamento da rede legada nas regiões em que a transferência dos assinantes estiver concluída e houver condições técnicas para a retirada.

O planejamento integra a resposta das empresas a questionamentos da Superintendência-Geral do Cade sobre o uso de postes, dutos e tubulações internas de edifícios. A consolidação das ocupações em postes atende a uma condicionante estabelecida pela Anatel na anuência prévia à aquisição. A área do Cade ainda não decidiu se autoriza a aquisição com ou sem condicionantes. O sinal verde do xerife da competição é a última etapa regulatória para que o negócio seja concluído.

O negócio foi anunciado em março e envolve a venda de 73,01% do capital da Desktop, o que lhe conferiu valor de mercado de R$ 4 bilhões. Conforme dados da Anatel de julho deste ano, a provedora tem 1,19 milhão de clientes de banda larga fixa. Já a Claro, 10,8 milhões, sendo a maior empresa do segmento no Brasil em número de assinantes. Destes, 4,6 milhões no estado de São Paulo. O negócio vai unir a terceira (Desktop) e segunda (Claro) colocadas no estado, que agregadas vão superar a atual líder regional, a Vivo – responsável por 5,2 milhões de acessos paulistas.

Migração começa pela adesão voluntária
Nos primeiros meses após o fechamento, a Claro prevê identificar os clientes HFC em áreas cobertas pela fibra da Desktop e comparar as ofertas disponíveis, considerando capacidade, benefícios e condições comerciais. A migração voluntária está programada para ocorrer entre o sexto e o 18º mês, com campanhas sucessivas e tratamento de impedimentos técnicos ou cadastrais.

A partir do 15º mês, a operadora deverá consolidar os resultados e avaliar individualmente os clientes remanescentes. O plano reserva o período entre o 18º e o 22º mês para eventuais migrações involuntárias, condicionadas à viabilidade técnica, às condições contratuais e às validações internas, com comunicação prévia e preservação da continuidade do serviço.

O desligamento regional do HFC está previsto entre o 21º e o 24º mês. Essa etapa dependerá da migração da base atendida, da preparação operacional e da confirmação de que a infraestrutura pode ser retirada. As regiões com dependências técnicas permanecerão com a tecnologia até a solução dos impedimentos.

Redes compartilharão o mesmo ponto nos postes
A Anatel determinou que, após a efetivação da operação, a Claro reorganize as redes para ocupar um único ponto de fixação por poste em até 24 meses. A prorrogação depende de aprovação da agência. A comprovação deverá incluir cronograma físico, municípios abrangidos e estimativa dos pontos a serem desmobilizados.

Nas áreas com sobreposição de duas redes de fibra, a estratégia apresentada ao Cade é concentrá-las no mesmo ponto de fixação, com um equipamento multiplicador que permita manter ambas operacionais durante a transição. Onde houver HFC da Claro e fibra da Desktop, a preferência será acomodar as redes na cordoalha da Claro, estrutura de sustentação dos cabos, conforme a viabilidade técnica.

A retirada dos cabos e equipamentos da rede desativada ocorrerá após a migração integral dos respectivos assinantes. Nos edifícios atendidos pelas duas empresas, as entradas e conexões também permanecerão durante a transição, com consolidação gradual por condomínio.

Execução depende de distribuidoras e outras prestadoras
O plano identifica como obstáculos os cabos cruzados com redes de terceiros, a necessidade de reconstruir conexões até os imóveis e as aprovações das distribuidoras de energia. Também aponta que a concentração de cabos poderá aumentar a complexidade da manutenção e o tempo de recuperação em ocorrências de queima ou rompimento.

A execução será organizada por áreas geográficas, priorizadas conforme o volume de sobreposição, o risco técnico e as condições para intervenção. Os municípios e a estimativa de pontos a liberar serão incorporados à medida que os cadastros e as vistorias forem consolidados.

Na manifestação ao Cade, Claro e Desktop defendem que a aquisição permitirá aproveitar a fibra já instalada e reduzir estruturas redundantes. Segundo as empresas, a manutenção de redes paralelas gera despesas recorrentes sem receita adicional, o que cria incentivo econômico para migrar os clientes e retirar a infraestrutura excedente.

Entidades cobram fiscalização da liberação de postes
Em respostas a questionários do Cade sobre a aquisição, associações do setor divergem quanto à suficiência da obrigação estabelecida pela Anatel. A Abrint considera a medida insuficiente e avalia que o prazo prorrogável de 24 meses pode prolongar restrições de acesso à infraestrutura.

Para a entidade, a reorganização deve ocorrer com transparência e previsibilidade, sem impedir ou retardar o acesso de outras prestadoras às faixas de compartilhamento disponíveis. A associação aponta o acesso a postes como um dos principais obstáculos à expansão dos provedores regionais.

A TelComp considera a condicionante parcialmente suficiente e defende que a aprovação da compra seja vinculada a um plano de agrupamento dos pontos de fixação com acompanhamento público. A proposta inclui levantamento inicial das ocupações múltiplas e relatórios trimestrais com municípios concluídos, postes regularizados, pontos liberados, percentual executado e justificativas para atrasos.

A entidade também pede fiscalização da Anatel e acompanhamento do Cade, com cumprimento do prazo preferencialmente sem prorrogação.

Já a Associação NEO entende que a obrigação é suficiente para tratar o eventual aumento da ocupação de postes decorrente da aquisição. Ressalta, contudo, que o setor enfrenta dificuldades de acesso à infraestrutura controlada pelas distribuidoras de energia e defende condições de compartilhamento isonômicas e preços justos.

Concorrentes divergem sobre preços
Entre as operadoras consultadas, a Algar Telecom classifica como alto o risco de aumento de preços. Na avaliação da empresa, a aquisição reduz o número de concorrentes fortes no interior paulista, com efeitos que dependem da participação de mercado da Claro em cada localidade após a incorporação da Desktop.

A Algar também aponta que a combinação de banda larga fixa, telefonia móvel e conteúdo pode elevar os custos de troca dos consumidores, pela perda de descontos e benefícios vinculados aos pacotes. A empresa considera moderado o risco de redução de qualidade.

A Alares classifica como moderados os riscos de aumento de preços e perda de qualidade. A Telefônica, por sua vez, considera baixos os dois riscos. A Giga Mais Fibra também vê baixo risco de reajustes, sustentando que a presença de operadoras nacionais e provedores regionais com redes próprias limita aumentos de preços. Quanto à qualidade, avalia que a concorrência e a migração do HFC para FTTH reduzem o risco de deterioração do serviço. Sobre os postes, considera a obrigação parcialmente suficiente: sua efetividade dependerá da fiscalização, do cronograma de desmobilização e da liberação real de pontos para terceiros.

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