Domingo, 19 de Abril de 2026

Capdeville vê espaço para IA nas ERBs e diz que 5G ainda não esgotou seu potencial

O grupo italiano TIM, dono da TIM Brasil, avalia que a inteligência artificial poderá abrir uma nova frente de negócios para as operadoras com o avanço do processamento distribuído na rede móvel. Em entrevista ao Tele.Síntese, Leonardo Capdeville, CTO do conglomerado, afirmou que a evolução da IA tende a deslocar parte da capacidade computacional de grandes data centers para estruturas de edge computing e, mais adiante, para as próprias estações rádio base.

Na visão do executivo, esse movimento está ligado à mudança no perfil de uso da IA. Hoje, segundo ele, a maior parte da demanda computacional ainda está concentrada no treinamento de modelos. No futuro, porém, a inferência tende a ganhar peso, o que exigirá processamento mais próximo do usuário para reduzir latência. “Quem é o candidato natural a ter essa distribuição, a ter essa capilaridade, são justamente as estações radiobases”, afirmou.

Esse redesenho, segundo Capdeville, pode transformar a rede móvel em uma plataforma de serviços, e não apenas de conectividade.

Da eficiência operacional ao edge de IA
O executivo dividiu a adoção de inteligência artificial em telecomunicações em dois momentos. O primeiro é interno, voltado à eficiência operacional. Nesse caso, a IA seria aplicada na gestão preditiva da rede, na automação de processos e na escolha mais dinâmica do uso das diferentes camadas de espectro disponíveis.

Ele citou como exemplo a possibilidade de decidir, em tempo real, qual faixa deve ser usada em cada conexão e até de realizar refarming dinâmico com apoio de inteligência artificial. Nessa etapa, a tecnologia estaria orientada a ganhos de eficiência e otimização de recursos.

O segundo momento, diz ele, é mais amplo e envolve a criação de serviços baseados na capilaridade das redes móveis. Capdeville afirmou que o avanço da inferência e as restrições energéticas dos grandes data centers favorecem um modelo mais distribuído, no qual operadoras possam hospedar capacidade computacional em estruturas mais próximas do usuário final.

ERBs como suporte para novos serviços
Capdeville disse que esse processo pode alcançar as estações radiobase. Segundo ele, o uso de GPUs mais adaptadas a ambientes de telecom e o interesse crescente de fornecedores nesse mercado tornam viável a instalação de capacidade computacional junto à infraestrutura de acesso. “No futuro, a gente vai ver uma estação radiobase usada não só para a comunicação do acesso móvel, mas também como elemento para hospedar agentes reais capazes de rodar user cases específicos”, afirmou.

Entre os exemplos citados por ele estão aplicações de baixa latência ligadas a wearables, óculos inteligentes e detecção de drones. Nessa lógica, a proximidade entre processamento e usuário reduz a dependência de nuvens centralizadas e cria condições para respostas em tempo real.

O executivo também afirmou que esse avanço pode sustentar modelos tanto voltados ao mercado corporativo quanto ao consumo de conectividade diferenciada, com parâmetros distintos de uplink, downlink e latência.

5G ainda não entregou todos os casos de uso previstos
Ao mesmo tempo em que projeta essa nova camada de serviços, Capdeville disse que o 5G ainda não explorou integralmente o seu potencial. Segundo ele, a tecnologia já cumpriu um papel importante ao elevar a qualidade da rede e ampliar a eficiência do tráfego, mas aplicações mais disruptivas ainda não se consolidaram comercialmente.

Ele citou como exemplos serviços críticos, controle remoto de máquinas, telemedicina e network slicing. Embora essas capacidades já existam tecnicamente, o executivo afirmou que o mercado ainda não passou a demandá-las em escala suficiente. “As aplicações disruptivas que se esperam do 5G, essas ainda não chegaram”, disse.

Na avaliação dele, o 5G terá vida longa e continuará em expansão além de 2030, da prevista pelos fabricantes para lançamento comercial das primeiras redes 6G. O executivo disse que o processo de migração ainda está em curso, com convivência entre 2G, 3G, 4G e 5G no Brasil e com grande parte do tráfego ainda concentrada em redes anteriores. Isso, segundo ele, indica que ainda há espaço para refarming de espectro, ampliação da capacidade e evolução para usos mais avançados.

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