Brasil pode ‘sair da fila’ dos data centers sem incentivos, alerta Cirion
O presidente da Cirion Technologies no Brasil, Augusto Salomon, afirmou que o País pode perder espaço na corrida global por investimentos em data centers caso não avance em políticas de incentivo ao setor. Segundo o executivo, o Brasil tem potencial para ampliar a participação no mercado global de infraestrutura digital, mas enfrenta desafios ligados principalmente à disponibilidade de energia e à segurança regulatória para investidores.
A medida provisória que criava o Regime Especial de Tributação para Data Centers (Redata) perdeu a validade no final de fevereiro e um PL sobre o tema deixou de ser votado no Senado. Isso desanimou setores interessados na aprovação do texto.
“O Redata talvez tenha oportunidade de ser o grande incentivador de investidores aqui do Brasil nessa linha”, afirmou. Segundo ele, outros países que registraram crescimento acelerado no setor adotaram políticas de incentivo e criaram marcos regulatórios voltados à atração de capital privado.
Data centers
O executivo disse ainda que o avanço da inteligência artificial (IA) elevou a demanda por capacidade computacional e energia elétrica. Isso tem pressionado a expansão de data centers em diferentes regiões do mundo. “O gargalo desse mercado hoje é disponibilidade de energia para que sejam construídos um data centers”, comentou.
Salomon afirmou ainda que a demora na adoção de medidas de incentivo pode reduzir a competitividade brasileira diante de outros mercados internacionais. “Isso precisa ser rápido para que o Brasil não perca a ordem mundial. Daqui a pouco, nós não estaremos mais na fila. Alguém vai ultrapassar a gente”, disse. Apesar disso, ele avaliou que o Brasil possui vantagens competitivas, como matriz energética predominantemente renovável e regiões ainda com disponibilidade de energia para expansão de infraestrutura digital.
Rota
O executivo também destacou a importância estratégica dos cabos submarinos para o avanço da IA e para o tráfego internacional de dados. Segundo ele, a infraestrutura de conectividade deve se tornar um dos principais gargalos globais da IA nos próximos anos. “Retirado o gargalo da energia elétrica, a transmissão de dados passa a ser o segundo gargalo. Hoje, as redes atendem apenas 30% da demanda necessária para IA”, afirmou.
Na avaliação do executivo, o Brasil ocupa posição relevante nesse cenário por concentrar rotas de conexão entre a América Latina e os Estados Unidos, principal polo global de dados e IA. “Você tem um cabo submarino em uma região que não tem histórico de conflitos. Isso se torna um ativo super importante para o desenvolvimento tecnológico do País”, declarou.
Ele também defendeu regras para disciplinar a instalação e operação dos cabos submarinos, especialmente diante do aumento esperado de novos projetos e do intenso tráfego marítimo na costa brasileira.
Hyperscalers
Os chamados hyperscalers (empresas de tecnologia como plataformas digitais, provedores de nuvem e grandes grupos de Internet) passaram a exercer papel central na demanda por conectividade e infraestrutura de rede. Segundo o executivo, o crescimento do consumo de dados por aplicações de inteligência artificial, streaming e plataformas digitais alterou o perfil tradicional do mercado de atacado de telecomunicações.
“Os hyperscales cresceram muito”, afirmou. O executivo citou empresas como Meta, Google e TikTok como exemplos de grupos que elevaram o consumo de banda nos últimos anos. Ele também afirmou que bancos digitais passaram a demandar volumes crescentes de conectividade. Segundo Salomon, a relação entre operadoras de infraestrutura e hyperscalers ocorre principalmente em formato de parceria, incluindo projetos conjuntos de expansão de rede e compartilhamento de investimentos em infraestrutura.
Perspectivas
A Cirion não citou números, mas informou que vem ampliando investimentos em conectividade, rotas terrestres e capacidade de transmissão em diferentes regiões do País. Segundo Salomon, a empresa tem concentrado aportes em áreas com crescimento acelerado de tráfego de dados, como o interior de São Paulo, especialmente nas regiões de Campinas e Ribeirão Preto, além de corredores entre São Paulo e Curitiba.
O executivo também mencionou investimentos no Nordeste, principalmente em Fortaleza e Recife, regiões que classificou como hubs tecnológicos ligados à expansão de cabos submarinos e ao aumento da demanda digital.
“Estamos ampliando rotas, colocando rotas novas para essa região”, afirmou. Segundo ele, a companhia também vem investindo em resiliência de rede, baixa latência e redundância de infraestrutura, tanto em rotas terrestres quanto submarinas. O objetivo é atender clientes corporativos, operadoras e provedores regionais na América Latina.
