Sábado, 15 de Agosto de 2026

Brasil é destaque em latência 5G, mas conexão com nuvem é gargalo para IA

Um levantamento da empresa de medição Ookla sobre a prontidão de redes 5G para inteligência artificial (IA), divulgado nesta terça-feira, 7, trouxe um retrato dividido do Brasil. Quando o assunto é a latência necessária para os serviços, o País se destaca, mas quando o critério passa a ser o caminho até os servidores de nuvem, onde os modelos de IA de fato rodam, a performance deixa muito a desejar.

Na medição de latência até a nuvem, o Brasil aparece em último entre os 22 mercados, com latência mediana entre 149,7ms e 163,6ms. Esse indicador representa o tempo de resposta entre a rede da operadora de telecomunicação e provedores como AWS, Azure, Google Cloud e Oracle Cloud Infrastructure (OCI).

O tempo de resposta brasileiro é bem mais alto que o registrado pela Coreia do Sul (de 39ms a 48ms), Alemanha (42ms a 45ms) e Noruega (48ms a 57ms). “O caminho da rede até a nuvem está se tornando, ele próprio, um fator limitante”, afirmou o relatório.

Latency to Cloud Infrastructure Varies“Latência para a infraestrutura de nuvem varia drasticamente entre mercados e provedores de nuvem”, diz Ookla. Imagem: Reprodução/Ookla

Para a Ookla, esse resultado tem menos a ver com arquitetura da rede móvel e mais com a forma como o País se conecta à Internet global. Isso porque o relatório atribui o problema a “um mercado de provedores de Internet fragmentado, onde a maioria carece de peering direto com as gigantes de nuvem”.

Na prática isso faz com que o tráfego passe por vários intermediários antes de chegar a qualquer servidor – inclusive, boa parte da infraestrutura está concentrada em São Paulo.

Tais margens de latência na comunicação com a nuvem, segundo o estudo, podem inviabilizar aplicações de voz e agentes de IA em tempo real, dependendo de qual provedor a operadora usa. “A latência da infraestrutura de nuvem acrescenta uma dimensão que os testes de rede, sozinhos, não capturam”, explicou o relatório.

Latência
Por outro lado, o Brasil registrou uma latência considerada robusta (de 37,6 ms), atendendo com sucesso ao requisito necessário para aplicações de IA conversacional por voz, aponta a Ookla. Apenas um país – Singapura – atingiu também a marca necessária para aplicações de realidade aumentada.

 

Dezoito mercados atingiram meta de latência para uso de LLMs de texto, mas apenas um atingiu patamar necessário para realidade aumentada. Fonte: Ookla

Ainda segundo o relatório, a Claro aparece entre as operadoras com melhor desempenho 5G combinando upload e latência – ambos indicadores essenciais para IA – sob condições normais de uso, superando concorrentes de mercados com 5G mais maduro. A operadora brasileira atingiu 32,23 Mbps de upload e 32,9ms de latência.

Esse resultado é superior, por exemplo, ao da alemã Deutsche Telekom em upload (24,57 Mbps), com latência praticamente equivalente (33,0ms). Os números da Claro também superaram as médias de mercado do Reino Unido (46,4ms de latência) e da Espanha (50,2ms), que sequer atingiu a meta do estudo para aplicações de texto por IA.

Degradação
O cenário brasileiro muda quando o critério passa a ser o comportamento da rede sob cargas de estresse, ilustrando o quanto a latência piora quando muitos usuários disputam a mesma célula ao mesmo tempo. Nesse indicador, o Brasil fica no meio da tabela: a taxa de degradação por aqui é de 7 vezes.

Isso é pior que a taxa de degradação da Alemanha (5,1x) e a do Reino Unido (3,7x), mas ainda assim melhor que a de Singapura (9,2x) e da Tailândia (11,4x), os piores colocados do estudo.

Upload segue como desafio
Há ainda um grande desafio para as operadoras brasileiras: a capacidade de upload. Aplicações como assistentes de voz, IA generativa e ferramentas multimodais exigem cada vez mais dados trafegando do aparelho para a nuvem.

O Brasil está entre os mercados que reduziram a fatia da capacidade destinada ao upload entre 2023 e 2025, aponta o relatório. A participação do upload nas redes do País caiu 1,27 ponto percentual no período, passando para 5,74%.

Mesmo que a parcela seja baixa (entre as últimas nos 22 mercados analisados), o upload brasileiro estaria atingindo o mínimo necessário para aplicações de AR, avalia a Ookla.

ooklaMaioria dos mercados aloca menos de 15% da capacidade 5G para o upload. Imagem: Ookla/Reprodução

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