Domingo, 18 de Janeiro de 2026

Belém terá geração temporária de energia para COP30

A menos de três meses de o Brasil sediar a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP) 30, o governo federal abriu licitação de R$ 51 milhões para contratar estrutura temporária de geração de energia elétrica em Belém (PA), sede do evento. O objetivo é evitar falhas no fornecimento durante a COP, que reunirá lideranças globais. A cidade vem enfrentando desafios logísticos para abrigar o evento, como o aumento do preço das diárias de hospedagem.

Documento obtido pelo Valor mostra que o sistema provisório terá capacidade de até 80 megawatts, suficiente para abastecer uma cidade de médio porte, com cerca de 190 mil residências.

Considerando o montante de energia e o valor da licitação, que poderá fechar abaixo do que foi posto pelo governo, devido à concorrência, o megawatt-hora sairia por cerca de R$ 901,28, de acordo com cálculos feitos por especialistas no setor elétrico a pedido do Valor. Como comparação, o Preço de Liquidação de Diferenças (PLD) médio da Região Norte da última semana operativa de agosto foi de R$ 282,15/MWh. O PLD representa o preço da energia no mercado de curto prazo e varia semanalmente com base na oferta e demanda de eletricidade.

Apesar do valor elevado em relação ao da energia no mercado, fontes do setor elétrico explicam que é natural que o preço pago fique acima do realizado em leilões e em outras contratações, por se tratar, justamente, de uma contratação temporária e para suprir o consumo de um determinado evento.

Rede pública local não comporta a demanda extra da conferência, na visão do governo

O sistema será instalado no Parque da Cidade, em Belém, e abastecerá as áreas centrais do evento, como a Zona Azul e a Zona Verde, além de sistemas de climatização, iluminação, audiovisual, tecnologia da informação e comunicação e serviços de backup. A operação foi contratada para durar 30 dias.

A contratação é uma exigência do Acordo de País-Sede, assinado entre o Brasil e a Convenção-Quadro da ONU sobre Mudança do Clima (UNFCCC), mas também acontece em meio à preocupação em torno da instabilidade do sistema elétrico da capital paraense. Fontes do governo federal reconhecem, ainda que indiretamente, que a rede pública local não comporta a demanda extra da conferência. Apesar disso, elas apontam que a contratação é praxe para grandes eventos.

O sistema será composto por grupos motores geradores trifásicos, silenciados e em conformidade com normas técnicas, ambientais e de segurança.

Segundo a Secretaria Extraordinária para a COP30, ligada à Casa Civil, o plano é que os geradores operem com biocombustíveis. Pessoas a par da discussão, no entanto, admitem que pode haver uma margem residual para outras fontes de energia, se necessário, como combustíveis fósseis. De acordo com a secretaria, a medida busca “suprir a alta demanda elétrica prevista para o período, sem sobrecarregar a rede pública da capital paraense e garantindo a operação”.

A intenção do governo é que a energia seja gerada pelas fontes menos poluentes possíveis. Contudo, o fornecimento do combustível renovável dependerá do vencedor da licitação. “Caso essa parceria não se concretize, a própria empresa contratada fará o fornecimento”, diz o órgão. “A prioridade será sempre utilizar combustíveis menos poluentes possível”, complementa.

O vencedor da licitação, após ser anunciado, terá cerca de duas semanas para apresentar um projeto executivo detalhado. A expectativa oficial é garantir “confiabilidade total”, sem comprometer o abastecimento da cidade e assegurando padrões semelhantes aos de edições anteriores do evento, além de proteger o funcionamento regular da cidade-sede.

O governo também promete adotar as melhores práticas internacionais de sustentabilidade, como a compensação das emissões. Segundo a Secretaria Especial, o Plano de Compensação de Emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) do evento está em fase de aprovação interna e deverá ser apresentado em outubro.

Para além da contratação temporária, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) também se prepara para operação especial para mitigar possíveis falhas no evento. Ao Valor o diretor de operação do órgão, Christiano Vieira, afirmou que em todos os eventos especiais, como Carnaval, são estabelecidas medidas operativas diferenciadas para garantir segurança adicional no suprimento. Mas o diretor ressalta que o ONS é responsável apenas pelas redes que levam energia até a cidade, não cabendo a ele a atuação sob as redes de distribuição. Entre as medidas estão o bloqueio de intervenções na rede de operação no período do evento. O diretor disse que o ONS fez um simulado com os agentes do setor que operam transmissão e a distribuidora que atende Belém de cenários de perda de carga e medidas operativas.

 

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