Após oito meses, operadora de celular do Nubank atinge 0,04% da base do banco
Apontada por parte dos analistas de telecomunicações como o “cisne roxo” que iria disputar o mercado com Vivo, Claro e TIM, a realidade da Nucel está se mostrando muito distante das expectativas que foram criadas em torno dela. Oito meses após ser lançada, a operadora de celular atingiu 44,5 mil linhas ativas em junho, número que corresponde a 0,04% da base de 105 milhões de clientes da fintech e 0,01% do total de 266,2 milhões de linhas de telefonia móvel no País.
Os números são da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), que desde a semana passada passou a divulgar a quantidade de usuários das operadoras virtuais, ou MVNOs, na sigla em inglês. Esta categoria, na qual a Nucel se encaixa, diz respeito às empresas que prestam serviço de telefonia e internet aos consumidores sem ter redes, torres ou antenas próprias. Em vez disso, usam a infraestrutura de terceiros. O Nubank, por exemplo, tem parceria com a Claro.
A Nucel foi lançada em outubro de 2024, focada inicialmente em quem tem aparelhos com chip virtual (eSIM), o que limitou a oferta para os clientes de maior renda, com smartphones de ponta. Só em julho, começou a distribuir chips físicos, o que amplia significativamente o público potencial e deve contribuir para acelerar o crescimento daqui para frente. A Nucel tinha 3,6 mil usuários em janeiro, 10 mil em março e 29,5 mil em maio, o que já indica um ganho de tração.
Operadoras virtuais não concorrem com as grandes
“Imaginaram que a Nucel pudesse fazer com as operadoras o que o Nubank fez com os bancos, mas não é bem assim. Essas coisas são delírios de quem não conhece o mercado de telecomunicações”, afirmou o sócio fundador da consultoria Teleco, Eduardo Tude. “Nenhuma MVNO no mundo incomoda as grandes operadoras. E o objetivo nem é esse”, ressaltou.
Via de regra, as operadoras virtuais são criadas por empresas de diferentes setores como um instrumento adicional de fidelização dos usuários do seu negócio principal, sejam bancos, varejistas ou times de futebol. A ideia é que o cliente fique mais engajado, aumente a frequência de uso dos serviços e gaste mais. Foi essa a tese do próprio Nubank, que acabou superestimada por alguns analistas. “Nunca o objetivo de qualquer MVNO foi disputar com as grandes operadoras”, ponderou o sócio da Teleco.
Dentro deste contexto, a evolução da Nucel pode ser considerada como algo “normal”, na avaliação de Tude. “A Nucel vem fazendo movimentos graduais e tem potencial de crescimento, mas se chegar a 1 milhão de usuários, já será motivo para se bater palmas”, estimou, lembrando que Vivo, Claro e TIM têm de 60 a 90 milhões de linhas de celular, cada.
Ao todo, existem 182 MVNOs no Brasil, com um total de 7,9 milhões de linhas ativas, de acordo com a Anatel. A maior operadora virtual do Brasil é a Surf Telecom, que ultrapassa 2 milhões de usuários, baseada em redes da TIM. A Surf customiza planos para empresas que querem oferecer telefonia e internet para seus próprios clientes, como os Correios, que têm 750 mil usuários. Entre outros exemplos de MVNOs, há também a Inter Cel, do Banco Inter, com rede da Vivo e 145 mil clientes; o Maga+, do Magazine Luíza com Claro, com 112 mil clientes; o Chip Pernambucanas, da Casas Pernambucanas com a Surf, com 30 mil clientes; e o Carrefour Chip, do Carrefour com a Surf, com 6,6 mil clientes.
Margem de manobra é limitada
Para o analista de telecomunicações do UBS, Leonardo Olmos, havia um receio de investidores das outras operadoras quanto ao potencial de crescimento da Nucel, mas, aos poucos, isso foi sendo dissipado. “Nunca ouvi nenhuma das três grandes operadoras super preocupadas com a Nucel”, afirmou Olmos. “Dado que a Nucel opera em uma das redes já existentes (Claro), isso limita bastante a margem de manobra do que podem fazer em termos de preço de planos, cobertura ou mesmo ofertas diferenciadas de conteúdo, quando comparada com as três grandes”, acrescentou Olmos.
No fim de julho, a Nucel fez um ajuste nas suas ofertas, com ampliação do pacote de dados e corte de preços. O plano de R$ 45 passou de 15GB para 20GB; o de R$ 55 foi de 20GB para 25GB; enquanto o plano de 35GB caiu de R$ 75 para R$ 70. O valor de entrada da Nucel está abaixo do praticado por Vivo, TIM e Claro, cujos planos começam em R$ 58, mas oferecem mais dados (ao menos 30 GB).
Procurado, o Nubank não fez comentários, pois entrou em período de silêncio em virtude da proximidade com a publicação do balanço.
