Amazonas sobe no ranking da reciclagem, mas realidade desmente avanço
O mais recente levantamento do Ranking de Competitividade dos Estados, divulgado na última sexta-feira (14), mostrou que o Amazonas ocupa a 5ª posição entre as unidades federativas com melhor desempenho na recuperação de resíduos recicláveis secos e orgânicos.
O estudo, realizado pelo Sistema Nacional de Informações em Saneamento (SINISA) em parceria com o IBGE, mede a proporção de materiais recuperados em relação ao total coletado nos estados.
Apesar do bom resultado numérico, especialistas afirmam que a posição do Amazonas contrasta com a realidade enfrentada pela maior parte dos municípios do estado, onde a coleta seletiva ainda é limitada ou inexistente.
Veja ranking completo:

Contradições com dados históricos do setor
Para o professor e especialista em meio ambiente Helton Oda, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), o desempenho do estado no ranking deve ser avaliado com cautela.
“A posição do Amazonas no ranking é bastante peculiar, pois contrasta com todos os dados sobre resíduos sólidos de instituições e órgãos especializados. O estado é apontado como um dos piores em coleta seletiva domiciliar e também está entre os últimos em coleta seletiva.”
Segundo Helton, mesmo que estados da Região Norte apareçam bem posicionados proporcionalmente na recuperação de resíduos, isso não significa eficiência ambiental real.
“A considerar a ineficiência do país na recuperação de resíduos sólidos, qualquer posição que o Amazonas ocupe o torna, em relação à situação ideal, muito distante de ser eficiente.”
Dados recentes do Sistema Nacional de Informações em Saneamento (2023) reforçam essa avaliação: o Brasil recupera menos de 2% de seus resíduos sólidos recicláveis.
Desafios locais persistem
Apesar do destaque no ranking, o Amazonas continua enfrentando problemas graves relacionados à destinação inadequada de resíduos, especialmente em áreas sensíveis da Região Metropolitana de Manaus.
O professor cita o caso do igarapé do Tarumã-Açu, frequentemente tomado por resíduos plásticos.
“É necessário que o Estado organize suas cooperativas de catadores, associações de moradores e outros coletivos sociais de forma mais eficiente, para evitar dramas como o do igarapé do Tarumã-Açu, atulhado de resíduos plásticos.”
Ele ressalta ainda a urgência de mapear indústrias de reciclagem, investir nos setores mais deficitários e fiscalizar as empresas do setor.
“Há indústrias que se utilizam de mão de obra precária, violando direitos trabalhistas e condições mínimas de saúde e segurança no trabalho.”
Gestão pública e participação social
Para Helton Oda, enfrentar a crise dos resíduos sólidos no Amazonas exige articulação entre múltiplos atores sociais, principalmente a participação da população.
“A administração dessa problemática exige a participação de moradores, catadores, lideranças comunitárias e empresas de reciclagem”, alertou.
Para o professor, os entraves vão além da falta de infraestrutura e envolvem também aspectos políticos e administrativos que dificultam a participação social e o avanço das políticas ambientais no estado. Segundo ele, a ausência de diálogo entre governo e comunidade agrava a fragilidade das ações públicas.
“O estado do Amazonas tem sido administrado por governantes autoritários, incapazes de dialogar com a população. Por isso, o envolvimento popular, a fiscalização e a efetividade das políticas públicas são tão precários”, concluiu Helton.
Desafio nacional
O estudo do WWF “Solucionar a Poluição Plástica: Transparência e Responsabilização” mostra que o Brasil é o quarto maior produtor de lixo do mundo, com 11,3 milhões de toneladas de plástico por ano, mas recicla apenas 1,28% desse volume.
Outro dado do WWF revela que cada brasileiro gera, em média, 1 quilo de lixo plástico por semana, grande parte sem destinação adequada.
Indicadores estimulam debate, mas não resolvem sozinhos
Embora o ranking nacional ajude a comparar políticas públicas e acompanhar o avanço dos estados, especialistas defendem que indicadores precisam ser acompanhados de investimentos concretos em infraestrutura, educação ambiental e fiscalização.
O posicionamento alcançado pelo Amazonas, embora positivo, revela mais a necessidade urgente de avanços do que uma situação consolidada.
