“Alguém está vendendo internet para criminoso”, aponta executivo da Neo
No Painel Telebrasil 2025, o combate à criminalidade digital e à pirataria de equipamentos mobilizou representantes da Anatel, do governo federal e de entidades do setor de telecomunicações. O debate evidenciou avanços em mecanismos de fiscalização e cooperação, mas também trouxe cobranças por mais rigor no enfrentamento à informalidade e aos ataques de organizações criminosas sobre redes de telecomunicações. Empresas apontaram falta de ação sobre provedores informais e atacadistas de banda larga, enquanto Anatel destacou avanços em cooperação e bloqueios virtuais.
Rodrigo Schuch, presidente executivo da Associação Neo, foi direto ao afirmar que não há como combater fraudes e pirataria sem enfrentar a informalidade no setor. Segundo ele, “22 mil provedores, 53% desses provedores não publicaram nenhuma base no último ano. […] Nós temos aqui uma situação de ocupação ilegal de postes, eventual sonegação de impostos, e quando você olha a competição justa, não me parece justo você ter empresas que eventualmente podem estar fazendo uso disso”.
Schuch relatou casos de redes “sequestradas” por facções em estados como Amazonas e Espírito Santo, situação que impede até mesmo equipes técnicas de operadoras de acessarem estações de radiobase. Para ele, a fiscalização precisa alcançar também os atacadistas de banda larga:
“Alguém está vendendo banda para esse criminoso para que ele possa sair para a internet. Se você teve a sua rede sequestrada e os seus clientes tomados em uma determinada região que está capturada, ainda assim, ele precisa sair para a internet. E você tem aí, no máximo, 100 empresas que representam no mínimo 95% ou 96% da capacidade do país que você poderia atuar mais firme nessas empresas. Então, essa é uma proposição aqui como uma das formas de a gente atuar.”
O dirigente sugeriu ainda uma atuação conjunta com o Comitê Gestor da Internet (CGI):
“Outra forma é identificar onde que os IPs estão naquele momento. Você consegue dizer se é uma área de risco ou não, se a gente fizesse esse trabalho conjunto.”
Governo e especialistas defendem cooperação ampliada
Rodney da Silva, diretor de operações integradas da Secretaria Nacional de Segurança Pública, ressaltou a necessidade de incluir polícias estaduais no combate aos crimes digitais. “Que a gente comece, a Anatel e outros órgãos, a criar um fluxo, um canal técnico de comunicação com a Senasp”.
Já Percival Henriques, conselheiro do CGI.br, defendeu uma estratégia centrada no cidadão. “Nós invertemos o centro. O centro não é mais somente o poder do Estado. O centro passou a ser o cidadão. Quando se fala em questão da educação, você transforma a prontidão cibernética, ela passa a estar a partir do cidadão”.
Do lado da tecnologia, Mário Borges, vice-presidente da Cleartech, apresentou soluções como o STIR/SHAKEN para bloquear chamadas fraudulentas. “No ano de 2024, estima-se que globalmente tenha havido um prejuízo na ordem dos 500 bilhões de dólares nesta área de fraudes cibernéticas”, alertou.
O moderador Abraão Balbino, presidente da ABR Telecom, resumiu a preocupação do setor: “A gente sabe que tem muita cooperação para conseguir resultado, até porque estamos falando de uma questão que, na verdade, é de segurança pública”.
Anatel destaca riscos das TV Boxes e cooperação institucional
Durante o painel, a superintendente de fiscalização da Anatel, Gesiléa Fonseca Teles, ainda lembrou que o problema das redes piratas se soma ao uso de equipamentos não homologados. “A TV Box não homologada traz um risco seríssimo de segurança cibernética para os usuários”, disse.
Ela citou estudo da agência que identificou malwares em aparelhos piratas, capazes de roubar dados pessoais e bancários. Também destacou a atuação em conjunto com outros órgãos: “Temos ações de cooperação com Receita Federal, com Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, ações diretas em portos e aeroportos para estancar a entrada de produtos não homologados no Brasil”.
