Abinee/Barbato: aplicação da lei da reciprocidade contra EUA só vai piorar a situação do Brasil
A decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de autorizar o Itamaraty a acionar a Câmara de Comércio Exterior (Camex) para iniciar consultas, investigações e medidas com vistas à aplicação da Lei da Reciprocidade Econômica contra os Estados Unidos em nada agradou ao presidente da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), Humberto Barbato.
A decisão de Lula conforme apurou a jornalista Eliane Cantanhêde, do Estadão seria uma resposta do governo brasileiro à tarifa de 50% imposta pelo presidente norte-americano, Donald Trump, sobre as exportações brasileiras para os EUA.
Para Barbato, o contra-ataque brasileiro só vai agravar ainda mais a situação. “Vejo com muita preocupação esta reação do governo brasileiro porque hoje, 29% de todas as exportações do setor elétrico e eletrônico brasileiro são para os Estados Unidos. Está faltando bom senso das pessoas que têm que dialogar. Quando dois países estão divergindo, a melhor maneira que tem não é ir pra guerra, a melhor maneira que tem é a gente tentar o diálogo, por mais difícil que ele possa ser”, considerou o presidente da Abinee.
Os EUA são hoje, de acordo com o executivo, o maior comprador de motores e transformadores elétricos do Brasil. E, de acordo com ele, quando se está falando destes produtos, não está se tratando apenas de preços. É também de normas técnicas que precisam se atendidas para satisfazer o cliente.
“Não estamos falando de commodities. Estava lendo hoje que o México se tornou num dos maiores destinos na carne brasileira. É um produto que pode ser transferido de um mercado para outro com relativa rapidez. Mas não é o que acontece com motores, transformadores, por exemplo”, queixou-se Barbato.
“Até 15 anos atrás eu fui fabricante de motores e transformadores. Viajei o mundo inteiro para vender nossos produtos. O mercado mais difícil de se acessar era o americano por causa da concorrência. O mundo todo quer vender estes produtos para os Estados Unidos”, emendou.
Barbato insiste que é preciso tentar o diálogo, porque do contrário o Brasil só vai criar mais dificuldades. De acordo com ele, é preciso entender que o Brasil tem uma dependência das suas exportações aos Estados Unidos muito maior do que o país depende das importações brasileiras.
“Eu acho essa medida lamentável, acho que isso só vai, infelizmente, agravar ainda mais a situação e dificultar mais ainda a vida das empresas. Ou seja, se quer apostar no desemprego, vamos apostar no desemprego”, disse.
Para Barbato, a justificativa do ministro de Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, de que o Brasil tem procurado o dialogo com o governo norte-americano e que não tem encontrado as portas abertas não serve.
“É obrigação do Itamaraty, é obrigação do diplomata, que é pago para isso, buscar o diálogo sempre. Não é para dizer que ele não tem mais que dialogar, que ele não está conseguindo dialogar, isso demonstra incompetência. Um diplomata que tem uma formação espetacular no Brasil, ou pelo menos tinha. Eu acredito que um diplomata como o nosso Mauro Vieira, pela idade que ele tem, por ter chegado ao cargo que chegou, ele sabe muito bem qual é o papel do Itamaraty. Ele deveria saber que o diálogo é muito mais importante do que ficar simplesmente agora retalhando. Porque não é retalhando que a gente vai chegar a nada”, criticou o presidente da Abinee.
Barbato diz acreditar que Trump, assim que for comunicado que o Brasil vai usar a Lei da Reciprocidade contra os EUA, vai endurecer ainda mais. Até porque o presidente Trump, infelizmente, diz ele, não é uma pessoa de muito bom senso. “Só que quando o inimigo é forte, você tem que pensar em qual é a melhor estratégia que você tem para poder lidar com esse seu inimigo. E não simplesmente porque o seu inimigo não é uma pessoa simpática que deve continuar se digladiando com ele. Isso não é inteligência”, ponderou o executivo da Abinee.
