A infraestrutura digital chegou à rede de acesso
Existe um recado que as tech companies já deram ao mercado de infraestrutura digital: Se vocês não atenderem, nós vamos atender.
Foi assim com os datacenters.
Foi assim com os cabos submarinos.
E muita coisa aponta para o mesmo filme se repetindo na rede de acesso, agora com as constelações LEO, o D2C/D2D e a IoT.
Claro que cada caso tem suas particularidades e o tamanho dessas fatias de mercado.
Mas existe uma lógica comum entre eles: quando a infraestrutura necessária para sustentar um ecossistema não está disponível na escala, no prazo ou no modelo esperado, alguém encontra uma forma de construí-la.
Na coluna deste mês não vou trazer uma sequência de números, projeções ou análises de mercado. A provocação parte da imagem que acompanha este texto e daquilo que tenho observado nos bastidores desse ecossistema.
Não é uma conversa sobre cercas ou tintas.
Também não quero entrar diretamente na discussão sobre fair share, D2C/D2D ou naquela narrativa que tenta resumir tudo dizendo que as empresas de tecnologia estão virando operadoras para competir com as telcos tradicionais.
A questão estratégica é maior: quem está realmente moldando o futuro da infraestrutura digital e da conectividade?
Estamos falando sobre visão, posicionamento, velocidade de execução e geração de valor.
Quando as operadoras definiam praticamente todo o jogo
E não, isso não é conversa de museu.
Durante décadas, as operadoras tradicionais definiram praticamente tudo: infraestrutura, serviços, inovação, experiência do usuário e o próprio conceito de conectividade.
O suprassumo do mundo tecnológico sempre teve uma perna dentro de uma operadora.
Até pouco tempo atrás, praticamente qualquer inovação chegava ao usuário final pelas mãos de uma telco.
Eram as operadoras que ditavam como as pessoas acessavam a internet e se relacionavam com a tecnologia.
Só que o mundo mudou.
Para parte do setor, entretanto, conectividade ainda significa investimento, rede, cobertura, espectro, banda larga e Mbps, terminando simplesmente no Wi-Fi ou no smartphone do usuário.
Tudo isso continua sendo essencial.
Sem infraestrutura, nenhuma transformação digital acontece.
Mas infraestrutura digital não se resume aos ativos que armazenam, processam e transportam dados. E conectividade já representa muito mais do que a simples disponibilidade de uma rede.
A infraestrutura cria a base.
A conectividade integra pessoas, empresas, dispositivos e aplicações. E a experiência transforma essa combinação em valor.
Quando as fronteiras começaram a desaparecer
Com a digitalização, vieram as tech companies e elas passaram a definir como as pessoas utilizam a conectividade, quais experiências importam e quais modelos de negócio fazem sentido.
Para sustentar seus ecossistemas, também precisaram avançar sobre a infraestrutura digital que existia por trás deles.
Datacenters, cabos submarinos, nuvem, processamento e redes de distribuição de conteúdo passaram a fazer parte de uma mesma estratégia.
Foi aí que as fronteiras entre tecnologia, telecomunicações e infraestrutura digital começaram a desaparecer.
Durante muito tempo, parte do mercado interpretou os investimentos das empresas de tecnologia em datacenters e cabos submarinos apenas como uma entrada competitiva nesses setores.
Mas essa leitura deixava de lado uma pergunta fundamental: Por que essas empresas decidiram construir a própria infraestrutura?
Não foi simplesmente para competir com os provedores tradicionais.
Foi porque precisavam de capacidade de armazenamento, processamento e transporte de dados e não encontraram no mercado aquilo que buscavam na escala, nos prazos, nas condições ou no modelo de negócio necessário.
Provocação #1: Em algum momento, oferta e demanda não se encontraram. Talvez o mercado não tenha compreendido o tamanho da oportunidade. Talvez não tenha aceitado o modelo proposto. Talvez não tenha atribuído o devido valor à demanda.
O resultado foi objetivo: existia um problema a ser resolvido.
E as tech companies resolveram.
Infraestrutura como meio, não apenas como fim!
Para essas empresas, construir um datacenter ou lançar um cabo submarino nunca foi, e ainda não é, necessariamente o negócio final.
Era o meio para levar produtos, plataformas e experiências até o usuário com mais capacidade, controle, qualidade e eficiência.
Enquanto parte do mercado tradicional enxergava a infraestrutura como o negócio, as tech companies a enxergavam como a base necessária para escalar o verdadeiro negócio.
Essa diferença de visão mudou o mercado.
Hoje, empresas originalmente posicionadas no setor de tecnologia estão entre as maiores investidoras em datacenters e cabos submarinos do mundo. Aquilo que parecia um movimento adjacente passou a ocupar uma posição estrutural dentro da infraestrutura digital global.
O mercado recebeu um recado naquela época. Mas, em muitos casos, preferiu tratar essas empresas como concorrentes improváveis ou subestimar o impacto que poderiam gerar.
Agora, a história avança para outra camada.
A discussão chegou à rede de acesso
Depois dos datacenters, do core, dos backbones e dos cabos submarinos, surgiu uma nova pergunta: onde a infraestrutura digital e a conectividade precisam existir?
Vimos iniciativas como Aquila, do Facebook; Terragraph, da Meta; e Loon, do Google. Nem todas sobreviveram ou atingiram escala comercial, mas avaliar elas apenas pelo resultado individual é ignorar seu valor estratégico.
Eram experimentos sobre o futuro.
Enquanto parte do setor buscava melhorar a infraestrutura existente, essas empresas testavam outros caminhos para levar conectividade a novos lugares, superar barreiras e criar experiências.
Provocação #2: há mais de 15 anos, algumas big techs já haviam entendido que, para continuar crescendo, precisariam ajudar a conectar quem ainda estava desconectado. Muito antes da atual onda das constelações LEO, essas empresas já buscavam reduzir as barreiras que impediam seus ecossistemas de chegar a essas pessoas.
Depois vieram iniciativas muito mais próximas do mercado e do usuário: Google Fiber, Apple com Globalstar, SpaceX com Starlink e Amazon com sua constelação LEO.
As tech companies chegaram à infraestrutura de acesso, aquela que conecta empresas, bate à porta das residências ou chega diretamente aos dispositivos.
Por que estão fazendo isso?
Mais uma vez, porque existe um problema ainda não resolvido: levar infraestrutura e conectividade aonde elas não estão chegando…
Um mercado potencial de 2 bilhões de pessoas
Hoje o mundo tem aproximadamente 2,2 bilhões de pessoas desconectadas.
Isso acontece por diferentes razões: ausência de cobertura, preço, falta de dispositivos, baixa capacitação digital e barreiras regulatórias ou políticas.
Agora, olhe para esse dado por outra perspectiva.
O usuário conectado passa, em média, mais de 33 horas por semana consumindo mídia online, segundo o relatório Digital 2026.
Estamos falando de tempo, atenção, dados, serviços, transações e inúmeras possibilidades de geração de receita.
Se o core do seu negócio depende da presença das pessoas dentro de um ecossistema digital, o que a sua empresa faria diante da possibilidade de alcançar uma parcela desses 2 bilhões de potenciais novos usuários?
Provocação #3: provavelmente faria muita coisa, inclusive construiria a infraestrutura de acesso e atenderia diretamente esses usuários, caso não encontrasse parceiros capazes de chegar até eles no prazo, na escala e no modelo necessários.
Para uma tech company, conectar uma pessoa não significa apenas ativar um acesso.
Significa trazer um novo usuário para dentro de um ecossistema no qual poderá consumir conteúdos, utilizar plataformas, contratar serviços e realizar transações.
A rede não é necessariamente o negócio final.
A rede é o caminho até o próximo cliente.
E aqui existe um dilema novo: o mundo nunca esteve tão conectado, mas conectar quem ainda permanece fora será cada vez mais complexo.
Os próximos usuários não estão, necessariamente, nos mercados mais simples, densos ou rentáveis. Muitos estão justamente onde existem os maiores desafios de cobertura, custo, renda e viabilidade econômica.
Mas alguém fará isso.
Porque essas pessoas não representam apenas uma lacuna de cobertura. Representam também a próxima fronteira de crescimento.
Cobrir territórios ou conectar pessoas?
Poucos setores acumularam tanta experiência em construir redes, cobrir territórios e conectar empresas e residências quanto o setor de telecomunicações.
Décadas de investimentos, espectro, capilaridade, conhecimento técnico e experiência operacional fizeram das operadoras especialistas nisso, ninguém faz melhor.
As empresas de tecnologia, por outro lado, aprenderam a conectar pessoas, experiências e ecossistemas. Entenderam comportamentos, desenvolveram plataformas e ajudaram a definir como indivíduos e empresas utilizariam a conectividade.
Essa diferença importa.
As tech companies não estão preocupadas apenas em cobrir territórios. Querem conectar pessoas, empresas, máquinas e dispositivos aos seus ecossistemas, utilizando infraestrutura digital e conectividade como meios.
Provocação #4: quando a infraestrutura necessária não existe, não está disponível ou não é entregue no modelo de que precisam, essas empresas podem assumir o risco de construí-la.
Novamente: Se vocês não atenderem, nós vamos atender.
Os satélites LEO são o próximo capítulo, não o fim da história!
As constelações LEO não deveriam ser analisadas apenas como uma ameaça competitiva às operadoras tradicionais.
Falamos muito sobre banda larga fixa via satélite e D2C/D2D, mas o desafio de conectar dispositivos IoT por redes orbitais segue a mesma lógica dos movimentos anteriores.
Ainda existem pessoas, empresas, máquinas, veículos, lavouras, cargas e dispositivos que não são atendidos de maneira adequada pelas redes disponíveis.
Enquanto parte do mercado discute se empresas de tecnologia e operadores de satélites são concorrentes, essas companhias avançam justamente sobre os espaços que continuam desatendidos.
Esse talvez seja um dos principais riscos estratégicos para o setor tradicional: tratar toda nova infraestrutura como uma ameaça automática, quando ela pode complementar os ativos já existentes.
Redes terrestres e orbitais possuem características, custos, limitações e aplicações diferentes. Em muitos cenários, não existe competição direta. Existe oportunidade de complementaridade.
Provocação #5: Nenhuma tecnologia, rede ou empresa conseguirá atender sozinha a todas as necessidades do futuro.
Quem está pintando a cerca de quem?
É aqui que a imagem desta coluna ganha sentido.
De um lado, as empresas de tecnologia avançam sobre espaços tradicionalmente ocupados pelas operadoras e pelos provedores de infraestrutura digital.
Do outro, as telcos buscam novas posições em nuvem, inteligência artificial, segurança, serviços digitais, fintechs, marketplaces, plataformas e APIs.
Mas será que uma está realmente invadindo o território da outra?
Talvez estejam apenas ocupando partes diferentes do mesmo ecossistema, porque o futuro da infraestrutura digital e da conectividade já não respeita as antigas fronteiras do setor.
A questão estratégica não é saber se uma tech company virou operadora ou se uma operadora conseguiu se transformar em empresa de tecnologia.
É outra: Como construir esse futuro em conjunto e qual valor poderá ser gerado a partir dessa combinação?
Nunca foi apenas sobre tecnologia
Acompanho de perto os bastidores desse ecossistema e muitos sinais apontam para o mesmo filme se repetindo.
Novamente existe uma demanda que não está sendo plenamente atendida. Novamente aparecem empresas dispostas a construir a infraestrutura necessária para resolver o problema.
E, novamente, parte do mercado parece mais preocupada em classificar essas empresas como concorrentes do que em entender como elas podem complementar aquilo que já existe.
Os satélites LEO são apenas mais um capítulo dessa história, assim como foram os datacenters e os cabos submarinos.
Isso reforça uma conclusão importante: nunca foi apenas sobre tecnologia.
É sobre entender quais problemas precisam ser resolvidos, perceber quando as fronteiras do mercado estão mudando e ter velocidade para se reposicionar.
Provocação #6: as tech companies não querem, necessariamente, competir com as operadoras tradicionais. Querem levar seus ecossistemas até pessoas, empresas e dispositivos que ainda estão desconectados ou não são atendidos da maneira que seus modelos de negócio exigem.
Se encontrarem no mercado a infraestrutura e as parcerias necessárias, trabalharão de forma complementar.
Se não encontrarem, farão o que for necessário para chegar até lá.
De uma forma ou de outra, essa conexão será construída
O mercado não espera até que todos estejam confortáveis com uma transformação.
Os ecossistemas mudam, novos protagonistas aparecem e aquilo que ontem parecia uma ameaça pode ser exatamente o complemento necessário para construir o futuro.
No final, a grande questão talvez não seja quem possui a melhor tecnologia.
É quem entende primeiro que o mercado mudou e consegue mudar junto com ele.
*José Felipe Ruppenthal é fundador da Telcoadvisors e escreve todo começo de mês para o Tele.Síntese sua avaliação do mercado de banda larga na coluna Etc. & Thal.
